ESTILOS DE APRENDIZAGEM. ONDE VOCÊ SE ENCAIXA?

Existe na literatura especializada nomes complicados para designar estilos diferentes de atenção (ou aprendizagem). Vamos esquecer esses nomes, substituindo-os por outros mais agradáveis à nossa lembrança. Podemos, dessa maneira, identificar pelos menos quatro estilos diferentes:

  •  Poeta
  • Soldado
  •  Estatístico
  • Compositor

Afirmar que existe vantagem em se apresentar com esse ou aquele estilo, equivale mais ou menos à garantia de que ter cabelos loiros, ruivos, morenos ou pretos expressa qualidade de aparência. Existem pessoas lindíssimas e outras nem tanto com cabelos dessa e daquela cor, e tê-los assim ou assado pode inspirar um desejo, jamais valoração estética.

Feita a ressalva, vamos à caracterização de cada estilo e a uma sugestão sobre a melhor forma de valorizá-los.

  •  POETA

O estilo de aprendizagem a que denominamos “poeta” valoriza bem mais a jornada que o ponto de chegada, o encanto da procura que a sede de descoberta. Como o nome bem o identifica, parece ser um sonhador e, por assim ser, se afasta do racionalismo mecânico e da ordem racional, fixando-se, geralmente, em analogias. Em síntese, é um estilo que parece odiar o que habitualmente se denomina “pão, pão, queijo, queijo”.

Com os portadores desse estilo de aprendizagem, quase sempre de nada adianta castigos e ameaças ou subornos de prêmios; mais o ajuda quem é capaz de bem compreendê-lo, ajudando-o a ir do que lhe parece “difícil” ou “complicado” ao que acha mais fácil, e de bem ensiná-lo a construir significações a partir de exemplos concretos. Quando quem tem esse estilo descobre, por exemplo, uma rima em uma equação ou um herói em uma narrativa, aprende-a melhor e com mais expressivo entusiasmo, pois sua atenção valoriza bem mais a forma que a essência. Dessa maneira, o estilo de aprendizagem desse fictício personagem manifesta-se com intensidade para questões que envolvem a pessoa e, portanto, que dizem respeito ao “eu” e ao “outro”.

Interessadíssimos nas relações interpessoais, eles possuem valores éticos fortemente estabelecidos e, entre estes, a empatia ou a “capacidade de sentir o outro em si mesmo”; por isso, concentram sua atenção nessas prioridades e no sentimentalismo, aprendem com facilidade as disciplinas humanas, os fundamentos de literaturas e os temas que envolvem a filosofia e a religião, afastando-se com temor de referências lógicas, problemas matemáticos e tudo que diz respeito ao mundo extremamente racional.

Por assim se apresentarem, são estudantes que geralmente não se dão bem com “regras”, “leis”, “princípios” e normas rígidas e pensam o mundo e a si mesmo em função de desejos e de emoções. Alunos com essas características precisam de professores que lhes “acordem” a curiosidade, envolvendo-os na missão de descobrir, e aprendem melhor quando um tema que se desvia de sua atenção possa a ela ser preso pelos caminhos da emoção, pelo gancho dos sentimentos, pela âncora da metáfora.

Requerem paciência e perseverança por parte de quem os educa – na escola e no lar –, mas quando conquistados pelo afeto são capazes de chegar “até as estrelas” ou mais ainda. Rejeitam professores que impõem normas e definem linhas rígidas de procedimento, mas buscam aqueles que oferecem desafios pela diversidade de linguagens. Produzem melhor se integrados em grupos que associam a amizade ao estudo, são facilmente levados se os caminhos sugeridos permitem que possam lidar com diferenças, compreender oposições, teatralizar o que necessitam saber.

  • SOLDADO

O estilo de aprendizagem se opõe ao do poeta. Extremamente racionais e, geralmente organizados, usam sua capacidade de atenção de maneira determinada e focada no alvo que desejam. Não se dispersam por quase nada, não vagueiam pela criatividade e utilizam sempre, com extrema eficiência, o pensamento lógico-dedutivo; dessa forma, têm facilidade para coisas racionais como a Matemática, a Física ou a Química e extrema dificuldade para os devaneios da filosofia ou para o encanto da poesia.

Aprendem a História e a Geografia pelas estradas da racionalidade e, dessa forma, tendem a ver o mundo dividido entre “bons” e “maus”, “certos” e “errados” e, não raramente, pelo exclusivismo preconceituoso de “nós” (os certos) e os “outros”.

Focando sua atenção na base do 8 ou do 80, não percebem que no mundo, além do branco e do preto, existe a cor cinzenta. Raramente se deixam envolver pelas emoções, pelo sentimentalismo ou pela compreensão de metáforas, preferindo sempre o caminho mais curto entre dois pontos. Adeptos fiéis da racionalidade não se encantam com quase nada que não seja óbvio e planejado e, dessa forma, necessitam de educadores objetivos que em tudo que lhes ensinar mostrem sempre as relações de causa e efeito, os “porquês” das coisas, o “antes”, o “agora” e o “depois” de cada tema, em cada aula.

Muito bons em comparar, analisar, sintetizar e classificar, necessitam de aulas em que essas habilidades operatórias se apresentem claras e jamais se mostram atentos quando a objetividade que sempre procuram se mostra perdida. Esse estilo de aprendizagem é geralmente associado ao estereótipo do “soldado”, porque parecem ter nascido para marcharem sempre em frente, sempre em busca de algo, jamais aceitando rotas alternativas. Em uma educação mais tradicionalista são geralmente vistos como sinônimos de “alunos excelentes”, aplaudidos por um preconceito cultural que via na precisão a eficiência. Costumam ser presunçosos e não aceitam que aqueles que são diferentes possam ter direitos à razão; para eles, os outros devem ser como eles e se não o são é porque estão errados.

Com firmeza, ainda que cercada de ternura, precisam de mestres que respeitem seu jeito de ser e, com exemplos e renovada paciência, mostre-lhes que se nada de errado existe em ser assim, não é errado ser diferente do que são.

  • ESTATÍSTICO

O estilo de aprendizagem apelidado de estatístico, olhado de forma superficial, se parece bastante com o soldado e, por vezes, é com este confundido. Mas são diferentes. A atenção do estatístico é a objetividade dos fatos e a concretização das ações. Muito bons na habilidade de descrever, são ainda melhores na capacidade de organizar e de sistematizar.

Sua atenção e seu interesse exigem reforços de diferentes linguagens; dessa forma, quando aprendem um texto, transformando-o em gráfico ou figura, ou aprendem uma figura ou um gráfico, transformando em texto, aprendem com mais segurança e guardam melhor na memória. Ávidos por experiências, odeiam as teorias que não lhes permita identificar na prática o que percebem em pensamentos. Não apenas para portadores desse estilo de aprendizagem, uma prática docente magnífica em todos os níveis de escolaridade é justamente propor a todos os estudantes esse mágico exercício de perceber um tema e imaginá-lo expresso por diferentes linguagens. Levá-los a descobrir, por exemplo, que em qualquer prática esportiva (futebol, vôlei, basquete, tênis e outras) é possível se perceber a Matemática, a Geografia, a História… Enfim, todas as disciplinas do currículo ou classificações dos tipos de saberes usados para humanidade.

Extremamente pragmáticos, acreditam que toda ação corresponde a uma reação; por isso, quando cumprem o que planejam e ainda assim não chegam ao fim desejado, se desesperam, irritam-se consigo mesmo, geralmente se autoavaliando como piores do que são. Nessas horas, precisam de mãos amigas não para que os console, mas para mostrar que existem caminhos diferentes para a meta que foi estabelecida.

Necessitam de professores que os compreenda e que, trabalhando suas sensações corporais, busquem sempre levá-los à construção de significados pelos caminhos da experimentação, da manipulação, da descrição objetiva e precisa.

  • COMPOSITOR

Se é verdade que existe alguma identidade entre o estilo soldado e o estilo de aprendizagem ou atenção estatístico, existe semelhança ainda maior entre o poeta e o compositor. Como o poeta, o compositor não presta a atenção sem apelo à imaginação, sem um diálogo que, enriquecido por imagens, permitam livre associações. Estudantes observados de maneira rápida ou superficial parecem apresentar distúrbios do déficit atenção por buscar sempre se afastar do concreto e do racional à procura da transformação e da mudança.

Péssimos repetidores “decorebas”, são incapazes de ouvir alguma coisa sem aprendê-la associando a outras e imprimindo formas diferentes em concebê-la. Para alunos com esse estilo de atenção, fatos históricos, como a Revolução Francesa, ou operações aritméticas, como o Máximo Divisor Comum, quando assimilados, ganham novos contornos e em sua mente desenham-se com novas formas.

Em mãos de professores com visão extremamente pragmática que espera sempre receber o que passam da mesma forma como passam, parecem ser alunos relapsos e inconsequentes, quando em verdade sua atenção se apoia na captação do todo por meio dos caminhos do imaginário. Ao contarem com a sorte de descobrirem mestres que permitem “esse seu jeito diferente de ver, mas nem por isso menos correto”, se soltam e amparados pela confiança que recebem as devolvem por meio de metáforas não raramente brilhantes. São alunos que estudam quando parecem brincar e em sua aprendizagem existe sempre “viagens” imaginárias e não convencionais por meio de imagens muito próximas ao “faz de conta”.

Ao concluir essa breve apresentação de estilos de aprendizagens (ou de atenção), uma pergunta parece se impor: como proceder para se ministrar uma aula excelente se em uma turma, como é quase natural, convivem poetas e soldados, estatísticos e compositores?

Receitas, é claro, não existem. O que importa é o professor “descobrir-se” fascinado com a diversidade e seduzido pela vontade de ser muitos, sendo um só. Não é, por acaso, melhor o cozinheiro que, respeitando paladares diferentes, oferece o prato com temperos específicos? Assim, se é verdade que receitas inexistem, até mesmo porque além dos quatro tipos ainda surgem outros formados por suas múltiplas fusões, é essencial que se aprenda a não ser rijo, não se dobrar ao pragmatismo de achar que todos necessitam ser iguais por estarem matriculados em uma mesma série.

Todo professor que é também excelente educador, de uma maneira ou de outra, assemelha-se a uma nação, pois, quando esta adota a certeza nos valores da democracia, aprende o segredo da diversidade e da saboreia com gosto o paladar de pessoas com estilos diferentes e renuncia com prazer a frieza do totalitarismo que inevitavelmente produzirá a intolerância contra todos quantos acreditam ser diferentes.

Fogueiras, patíbulos, enforcamentos, decapitações, inquisições, guilhotinas, fuzilamentos, campos de concentração, fornos crematórios e suplício de torturas em “paus de arara” são amplificações bárbaras, geralmente mascaradas pela intolerância de quem se acredita possuir a “verdade absoluta” e se acha na obrigação de a impor a todos. Não existe em lugar algum do mundo salas de aula em que apenas um ou dois tipos de “estilos de aprendizagens” emergem.