XIIII, PROFESSOR, “DEU UM BRANCO” I

Que professor já não ouviu de um ou alguns de seus alunos a expressão que dá título a esta crônica? E o que fazer para efetivamente promover uma ajuda? É certo que muitas vezes essa afirmação nada mais é que uma desculpa esfarrapada de quem não estudou, mas existem casos, e não poucos, de alunos estudiosos e sinceros que, em seu desespero, esquecem do que haviam aprendido. É possível, realmente, ajudar um estudante (um filho) quando reclama que “dá um branco” na hora da avaliação?

Felizmente, a resposta é positiva, ainda que a individualidade de cada cérebro nem sempre nos autorize a garantir que o que é bom para alguns é bom para todos. Entre os inúmeros atributos da mente humana, a memória é, sem dúvida, a que se estuda melhor e, se ainda não conhecemos todos os procedimentos necessários para impedir que ela se deteriore nem como estancar a terrível doença de Alzheimer, já sabemos muito e, disso tudo, há certos procedimentos inteiramente válidos para serem aplicados em sala de aula ou acudir a criança que, desesperada, busca ajuda.

A presente crônica procura elucidar alguns pontos incontestes sobre o conhecimento da memória humana e sugerir procedimentos que, se aplicados sistematicamente, reduzem de forma considerável a tão angustiante ameaça do “branco”. Vamos a esses pontos:

O ser humano não possui uma, mas muitas memórias, e a falha desta ou daquela exige um cuidado específico, para as quais medidas generalistas nem sempre ajudam muito. Além de memórias olfativas (ah, o cheiro inefável do bolo de fubá de mamãe!), temos memórias gustativas, visuais (essa cena jamais se apaga de minha saudade…), cinestésicas (quem aprende, jamais esquece os movimentos do corpo em um bom samba) e, ainda, as memórias propriamente ditas, que mais à frente comentaremos. Quando é possível ao professor associar um tema, uma teoria ou equação a uma dessas memórias, é bem mais fácil para o aluno acessá-la e, assim, se um exercício de raiz quadrada se associar ao cheiro do café, não há motivo para não se associar a queda da bastilha aos passos de tango.

Entre as memórias propriamente ditas, temos a clássica divisão em memória de curta duração (que permanece apenas alguns segundos e serve, por exemplo, para lembrarmos como começou a frase que agora estamos concluindo) e a de longo prazo — ou de longa duração —, que constitui o arquivo imprescindível de nossa individualidade. Integra essa família a memória da identidade e a memória autobiográfica. Se sabemos quem somos e nos lembramos do que e de quem gostamos, temos uma identidade e, portanto, somos quem somos. Mas lembrar-se da própria identidade não se confunde com outras lembranças e emoções pessoais. Se guardamos o nome de amigos queridos e lembramos com saudade ou desespero de momentos de imensa emoção, é a memória autobiográfica que estamos evocando. Faz parte desse grupo a chamada memória de procedimentos, que guarda instruções para a realização de tarefas comuns como andar, dirigir e sentar. Dificuldades com essas memórias, como as amnésias, requerem cuidados médicos e psicológicos específicos. Esquematizando esse primeiro grupo, caberia reiterar que existem memórias de curta e de longa duração. Entre estas últimas figuram três memórias que constituem a garantia de nossa individualidade: as memórias da identidade, a autobiográfica e a de procedimentos.

Integrando o grupo das memórias de longo prazo e, agora, já interessando de forma mais específica o cotidiano escolar, existe a chamada memória do conhecimento, que guarda os saberes escolares e os do trabalho que se realiza. Quando o aluno reclama que “deu branco”, na verdade, apela para a falha da memória do conhecimento ou de suas divisões. Vamos, brevemente, comentar essas divisões e sugerir procedimentos para mais firmemente estimulá-las:

Há três grupos de memória de conhecimento: conhecimento de saberes escolares ou profissionais, memória de identificação e memória de planejamento. Da primeira aqui já se falou. A memória de identificação retém nomes e fisionomias e serve para não esquecermos dos amigos e lembrarmos de personagens, músicos, cientistas e todos os que edificaram o saber humano. Importante para a história e a literatura, essa memória é essencial para a arte e a ciência de forma geral. A memória de planejamento contém dados sobre as atividades futuras da pessoa, suas metas, sonhos, anseios e projetos. Atuando como uma espécie de agenda, representa o ponto que se busca e é essencial entre tudo que se procura aprender na escola.

Ampliando a esquematização, temos:

O grupo das memórias olfativas, táteis, gustativas, visuais e cinestésicas.

O grupo das memórias propriamente ditas, divididas em memórias de curta e de longa duração e, entre estas, as memórias da identidade, autobiográfica e de procedimentos. Problemas nas memórias desses dois primeiros grupos constituem uma situação patológica específica e, portanto, a solução se encontra distante da escola, a não ser que tenha sido ocasionada por um forte trauma emocional produzido na família ou na própria instituição de ensino.

Pertencente ao grupo das memórias de longo prazo, figura a memória do conhecimento, subdividida em memória dos conhecimentos escolares, de identificação e de planejamento. Ainda que estas não sejam de uso específico escolar, é possível trabalhá-las em sala de aula e, assim, torná-las mais vivas.

A certeza dessa afirmação nasce da descoberta de que os episódios de esquecimento estão sempre ligados a três grupos de fatores: os de natureza fisiológica, como distúrbios do sono, abuso de álcool, uso de drogas, crises de stress ou ansiedade; o excesso de estímulos ou a falta de maior concentração. Aprofundaremos esse tema na próxima crônica.