UMA NOVA ESPÉCIE HUMANA – A CRIANÇA

Que a espécie humana evoluiu ao longo de milênios é afirmação científica que já mais ninguém duvida. Não se duvida também que o homo sapiens provém de outras espécies humanoides, há muito extintas, bem mais grotescas e primitivas. Finalmente, todos sabem que esse processo evolutivo é contínuo e assim sendo constitui sugestiva especulação antropológica se perguntar como será a espécie posterior ao homo sapiens, ainda mais avançada e incontestavelmente superior aos de agora.  Desafio biológico imenso, surpresa científica para muitos, realidade tangível para mim. Não apenas tenho certeza na evolução, como convicção de que uma espécie muito além da humana nos precederá.

O ponto que defendo é que essa espécie já existe, são encontradas em todos os países, nos mais insuspeitos lugares, convivem com os humanos com incontestável superioridade, mas infelizmente padecem de vida breve. É uma unidade biológica composta de organismos vivos, semelhantes entre si e aos ancestrais, ainda que não esteja apto a cruzarem-se entre si. Após pouco mais de dez anos de existência desaparecem como fumaça e se extinguem num repente. Vão embora sem aviso. Falo de crianças.

Não. Por favor, não tentem me convencer que uma criança é humana igual a nós. São filhos da nossa espécie, mas durante parte de sua existência alcançam patamar em que em tudo nos supera, ultrapassam limites que o ser adulto sequer pode igualar. A espécie criança, pela maioria de seus representantes, possui a fortuna da breve fantasia e a força colossal da imaginação liberta e isso as iguala a dimensão de deuses. Sem fantasia não existe realidade, tal como sem a perda não há o ganho; sem imaginação não há vontade e sem sonhos impossíveis não existem soluções. Certezas incontestáveis dessa superioridade colossal da espécie criança, que os adultos humanos teimam em não ver.

Para qualquer uma das crianças dessa nova e singular espécie, rabiscos na areia se transformam em projetos possíveis e sua ficção científica é apenas uma face encantada da realidade. Seus pensamentos vagam soltos e não há prisões que amordacem a realidade em que transitam. Se desejarem estrelas, podem toca-las e caso resolvam, podem apanhar junto ao sol vasos com fogo líquido onde plantam sementes impossíveis e criam insetos que se iluminam.  Algumas criaturas dessa espécie fantástica andam juntas e fundem em um só os pensamentos de alguns e com eles são capazes de transformar abstração em verdade e fazer de cada esquina um museu, em cada passo descobrir um palácio iluminado impossível de serem vistos por adultos.  Suas ideias se transformam em fatos, seus pensamentos reinventam sonhos ousados, seus olhos podem virar binóculos e telescópios e seus pés em asas de tapetes mágicos que subjugam a vontade do tempo e superam os limites do lugar.

Nada, absolutamente nada de tudo quanto à humanidade pode criar, se iguala a infinita grandeza dos sonhos de um menino, dos devaneios de uma menina. Pena, entretanto, que a durabilidade dessa espécie admirável seja breve e assim como em um repente esses sonhos se emparedam, esses loucos pensamentos ganham a censura da realidade e, sem a fantasia, seus cérebros de gênios encolhem e se transformam em pessoas comuns.