UMA ESCOLA CONSERVADORA E TRADICIONALISTA. UMA EXCELENTE ESCOLA

Todo carioca é sambista, todo baiano é folgado, todo paulista pensa apenas em ganhar dinheiro. Existe tolice maior que as informações contidas nesses aforismos? Claro que não, pois toda generalização é imbecil e, dessa maneira, basta apenas um pouco de bom senso para se saber que existem cariocas que odeiam o samba, baianos agitadíssimos em sua luta colossal e paulistas folgadíssimos e excelentes sambistas. Existem também, é claro, judeus gastadores, alemães que não admitem nem o cheiro da cerveja e italianos extremamente comedidos ao falar.

Esse passeio dialético sobre o absurdo das generalizações sempre nos vem à mente quando ouvimos falar de alguns colégios, muitos deles religiosos, extremamente tradicionais e conservadores e, por assim serem, rotulados indevidamente de retrógrados e ultrapassados, como se, em educação, a modernidade pudesse ser sinônimo de qualidade. Existem escolas modernas excelentes e escolas conservadoras não menos extraordinárias, o que parece ser mais difícil é descobrir a eficiência e a alta qualidade em escolas que caoticamente misturam tradicionalismo com modernidade e que assaltam todas as novidades como se elas pudessem, sem qualquer análise e contextualização dos objetivos educacionais, associarem-se à comprovação de qualidade.

O que é uma escola tradicional? De que forma ela pode associar seu conservadorismo à qualidade e à eficiência?

Acreditamos que todo modelo pedagógico que se afirma tradicional é aquele que se inspira nos postulados de Hegel (1770-1831), antigo reitor do Colégio de Nuremberg e que deixou para a posteridade um conjunto de seis interessantes discursos sobre educação que expõe com lucidez, clareza e surpreendente “atualidade” o modelo pedagógico que habitualmente chamamos de conservador. Nomeado em dezembro de 1808 reitor do “ginásio” de Nuremberg, escola fundada em 1526, exerceu seu cargo até 1816, período em que escreveu seus excelentes discursos, versando sobre a estrutura da aula, os mecanismos da aprendizagem, questões disciplinares, a formação ética dos alunos e ainda sobre outros fundamentos difíceis de serem refutados, mesmo nestes tempos de terrorismo, tecnologia digital e globalização. Para melhor compreender esse “modelo”, convém enfatizar que em sua época o mundo pedagógico mostrava-se filosoficamente dividido em duas perspectivas: o neo-humanismo, que defendia um ensino geral fortemente centrado na transmissão da herança cultural clássica, e o filantropismo, que reduzia a educação à aquisição de habilidades técnicas para o exercício profissional. Hegel, como idealista e racionalista, não se afastava um milímetro da primeira posição e, assim, defendia uma escola como agência cultural, com um pequeno currículo (latim, grego, alemão, matemática, ciências físicas e biológicas, geografia e história), mas trabalhado profundamente visando a transmitir às novas gerações uma tradição cultural sólida, baseada em saberes constituídos e testados e em componentes extracurriculares que envolviam a comunidade e sua análise.

Como deveriam ser as aulas nas escolas preconizadas por Hegel? Qual a função do professor como agente colocado entre o saber e a necessidade de aprendizagem do aluno?

Hegel achava que todos os professores, independentemente da disciplina ministrada, deveriam estruturar suas aulas ditando um pequeno parágrafo, explicando oralmente em profundidade seu conteúdo e suas implicações e, assim, questionar os alunos sobre uma compreensão verdadeiramente significativa. Após a aula, caberia aos alunos passar o ditado a limpo e sintetizar as explicações orais transmitidas, sorteando-se no início da aula seguinte alguns tópicos para a leitura crítica de sua síntese. Hegel recusava longas exposições e não admitia a passividade do aluno obrigado apenas a ouvir e a anotar. Aplicava o método dialético e, assim, todo o conteúdo dos parágrafos precisava apresentar uma tese ou afirmação, uma antítese ou negação e uma síntese, abrigando a negação da negação. As aulas jamais se distanciavam do apelo à reflexão do aluno e sua intervenção ativa no processo de construção da verdade. Não admitia outra linha de ação para nenhuma disciplina e se opunha a professores “proprietários da verdade” que simplesmente verbalizavam seus saberes. Respeitava muito sua equipe docente, escolhendo-a entre os que associavam sólidos conhecimentos na área, entusiasmo em ensinar e atitudes que pudessem modelar exemplos a serem seguidos. Não existia, portanto, o saber pronto, mas o “sim” e o “não” dos caminhos matemáticos na solução de problemas, das teses científicas, das teorias discutidas, dos fatos históricos analisados ou das regras e funções gramaticais.

Impossível negar a validade nesse procedimento e, atualmente, não é raro constatar-se que excelentes professores são “hegelianos” sem nem ter ouvido falar de Hegel.

Como Hegel pensava nos fins da educação? Na questão da disciplina em sala de aula? Na ação da família no processo educativo? Na formação moral e ética de seus alunos? Na educação do pensamento e na avaliação de seus alunos? Quais críticas podem fazer a Hegel e o que de bom e útil em seus ensinamentos precisa ser preservado, ainda que convivendo com outros modelos pedagógicos? São temas do nosso próximo artigo.