TRÊS PÍLULAS DE INTELIGÊNCIA PARA A VIDA INTEIRA

Inteligência é a capacidade de resolver problemas, empreender e criar ideias, subjugar a linguagem colocando-a a serviço da comunicação eficiente. É o domínio pleno do pensamento e a força da argumentação lógica, do raciocínio preciso e da plena aceitação dos outros em si mesmo. Em síntese, a inteligência é o poder de fazer de nossas emoções aliadas imprescindíveis para o relacionamento interpessoal e a construção e preservação da felicidade interior.

A inteligência humana arrancou-nos das savanas inóspitas da África e nos levou ao espaço sideral, à profundidade dos oceanos e a criação de uma medicina que alongou a vida, quase nos fazendo eternos. Mas, a inteligência humana, também, inventou as armas nucleares e sustenta atentados terroristas. A nossa inteligência é tudo, é o céu e é o inferno, o bem e o mal. A síntese do que somos e para onde iremos.

Mas, por muito tempo, se acreditou que a inteligência de uma pessoa era dotação divina. Deus, assim, era ente segregacionista que aleatoriamente a entregava farta e ilimitada para alguns e hesitantes mínimas para outros. O acaso, e somente o acaso, poderia permitir que esta ou aquela criança crescesse plena em sua inteligência. A descoberta da Neurociência e a compreensão plena sobre a mente humana tirou o Criador dessa perversa condição e, situando-o como um grande pai, mostrou que todas as crianças, em qualquer lugar, nascem prontas para serem muito inteligentes ou ficarem restritos a mediocridade de escravos que servem e vegetam.

A neuroplasticidade libertou o preconceito e hoje é unânime o conhecimento de que qualquer criança pode ser bastante ou pouco inteligente se contar com o privilégio de receber com continuidade e persistência a metáfora diária de três pílulas. Por elas, algumas crianças brilham e carregam esse brilho até o túmulo, outras crescem medíocres e assim serão até morrer. E quais são essas pílulas?

A primeira é a que se começa a administrar desde os três anos e até a final da juventude se insiste, é contar com adultos que com a criança e ao adolescente conversem. Conversem sobre os mais diversos assuntos, conversem sempre. Uma criança de uma classe mais abastada, no Brasil ou em qualquer parte do mundo, até por volta dos cinco anos ouviu mais de 35 milhões de palavras a mais que uma criança pobre e, assim, ganham um desenvolvimento linguístico extraordinário e, por consequência criam pensamentos e ideias e que são extremamente limitadas em crianças que não contam com essa ajuda fabulosa. Sem pensamentos não ocorrem ideias e sem estas a inteligência se atrofia.

A segunda pílula, em níveis mais abastados economicamente, a criança ouve frequentes e muitas palavras de ânimo, encorajamento, estímulos à superação, enquanto nas classes mais humildes a criança é bicho miúdo que só aprende com advertências, repreensões, achincalhamentos. A diferença é fenomenal. Crescemos com o que pensamos e se nos embutem a certeza de que para nada prestamos, o cérebro trata de plenamente assumir a restrição.

A terceira pílula, e certamente, a mais pródiga é o desafio, a interrogação, a vontade de se ensinar a pescar em substituição ao se fornecer o peixe. A criança desafiada a procurar, descobrir, criar, sentir-se autônoma desabrocha plenamente em oposição às outras que crescem na mediocridade de não aprenderem desafios. Se a inteligência efetivamente é a capacidade de resolver problemas, sem estes prevalece o acatar ao criar, seguir a manada ou conduzi-la.

Talvez, a referência mais curiosa que fundamentam as pesquisas que ilustram essas certezas é de que a diferença entre as famílias menos e mais abastadas, também se manifesta na escola em que estas crianças irão estudar. A boa escola, em qualquer nível de educação, é a que desafia, instiga, provoca, oferece ferramentas, mas para que os alunos saibam usá-las e, assim, transformar o aprender em fazer. A má escola, quase inútil, é a que os professores são donos da verdade e aos alunos cabe a medíocre missão de ouvir, memorizar e reproduzir. Na primeira crianças e jovens são integralmente protagonistas, nas últimas meros espectadores e que se alguma coisa de útil verdadeiramente apreendem, isso ocorre quando cabulam as aulas ou são dispensados porque alguns de seus professores faltaram.