O QUE VOU SER QUANDO CRESCER?

É esta uma pergunta atemporal. Feita a si mesmo por uma criança sugere o passar do tempo e a chegada da adolescência ou da vida adulta, mas a ideia do “crescer” não envolve somente o tamanho e a massa corporal e, nesse sentido, a pergunta cabe ao menino e a menina ou velho e a senhora idosa.

Na infância, o desafio da pergunta se envolve em sonhos e fantasias e muda a cada filme que se assiste, a cada papo que se ouve ou a cada lição de moral geralmente imposta, na juventude e para o restante da vida abriga a ideia do crescimento moral, do sentimento ético, da ideia de uma mudança de rumo, descoberta de uma rota. Para este caso, a ideia do crescer envolve princípios e atitudes, projeto de vida, anseios nem sempre plausíveis. É por essa razão que quando penso em estudantes que acabam de ingressar em uma Instituição de Ensino Superior é que me atrevo a escrever estas linhas, sugerir propostas não com a pretensão de que possam abraça-las, mas ao menos, com a intenção de sugerir pensamentos e entre outros tantos tão bons ou até melhores, deixar uma vontade de referência, um desafio para a reflexão. Nesse sentido, creio que a resposta à pergunta passa necessariamente pela intenção de alguns princípios, a construção, nada fácil, de alguns valores. E quais seriam esses valores!

Não penso em hierarquia e entre os que nesta crônica despretensiosa destaco não existe o mais e o menos importante e o primeiro, com tranquilidade, poderia no último se colocar. Assim:

Não existe crescimento interior sem a persistente e difícil busca da Serenidade, desta indócil alternativa de não perder a calma, mesmo se em nossa volta os ânimos se agitem, mesmo se os que se creem acima mostram o destempero da raiva, a agitação insana do desespero. Ao lado da Serenidade e sua irmã na grandeza, com certeza se coloca o uso persistente e firme da Verdade, mesmo quando cercado de hipocrisia, rodeado de mentirosos, quem sabe até mesmo em ambiente em que se exalta a arrogância mesquinha da falsidade.

Isso tudo e ainda mais a boa e consciente Humildade, na negação da soberba e da presunção e na certeza de que somos folha na selva, apenas pequena gota que faz o mar. Se a isso se chega como não é possível caminhada sem erros, assumir a postura de sempre não deixar de assumi-los, de fazer dos mesmos a inevitável lição e em sua análise encontrar os caminhos do acerto. Mas, para que esse patamar se alcance nada parece tão crucial como a crença no Otimismo, a vontade de acreditar que mesmo em tempestades, o sol nunca deixa de brilhar, mesmo na angústia da derrota, existe a forte esperança no amanhã. Se esse patamar se chega, conquista simultânea é a Generosidade, o sentimento de acolhida e respeito pelos que estão ao alto e igual respeito pelos que, simples e pequeninos esse alcance jamais poderão cogitar. A esses valores, impossível não agregar a consciência da Espiritualidade, da convicção de que se aqui chegamos, temos que exaltar a beleza divina que se oculta no silêncio da noite, no afago da brisa, na melodia do mar. Se alguém nos criou é para a dádiva do servir, a vontade espontânea de se encantar com a natureza e com a riqueza diversificada da vida.

Não creio que essa lista deva prosseguir e, sinceramente acredito que outros valores desejassem a estes agregar, estaria simplesmente repetindo o óbvio, acrescentado sinônimo à grandeza Humana. Mas a dúvida insiste:

Será que se esta conquista for possível alcançar, terei sucesso! Serei um líder! Ganharei fortunas! Construirei mansões! Impossível responder.

O lado saboroso de olhar para frente é sentir a expectativa pelo desconhecido, é aprender que jornada vale mais que seu término. Mas, ainda que o sucesso não venha, a liderança se esconda e fortuna nos fuja restará à gloriosa certeza de se fazer nós mesmos, abandonar a manada e honrar-se em ser singular. Perceber, enfim, razão essencial para o existir, missão para cumprir, cultivar nossa marca que, tal como tatuagem, nos recorda a cada instante que somos humanos.