COMER TUDO OU COMEM BEM?

Imagine-se na fila, para se servir no restaurante. Seguindo tendência que no país inteiro se transformou em moda, esse também fornece refeições pelo sistema “self-services”. Você desembolsa um preço fixo e escolhe o que mais lhe convém, sem pensar que abarrotando o prato a proporção do custo lhe sai menor.

Ao percorrer as estantes onde diferentes pratos se alinham, claramente se percebe oferta bem mais ampla que a procura. Você ao caminhar com seu prato na mão vai aqui e ali, se servindo do bem apetece. Não importa que existam quarenta pratos, se você se serve de apenas quatro ou cinco, não faz qualquer diferença a apetitosa batata assada com alecrim se para você, naquele momento, as batatas passam longe de sua vontade. Esta necessidade deve ser sempre orientada pelo bom senso e assim você esquece a quantidade em busca da qualidade, equilibra seu apetite com seu regime, pouco ligando para dezenas de pratos que você nem ousa tocar. Esses pratos, é evidente, não o incomodam, não serve para você nesse dia, mas por certo para outros servirá.

Os conteúdos curriculares existentes nos livros e apostilas didáticos deveriam ser pelo professor, olhado da mesma forma com que olham os pratos dispostos nesse self-services.
Todo professor sabe que deve dar todo o conteúdo dos livros, mas esse conteúdo integral é muito diferente da obrigação de dar “tudo” de todos os conteúdos. Os autores, quando redigem seus textos, sabem que devem organizá-los mais ou menos como gôndolas de restaurantes self-services. Expõem o mais possível de todos os assuntos, não porque acreditam que os alunos deverão “engolir” esse imenso e absurdo volume de informações, mas para propiciar aos professores a essencial seleção dos itens de cada assunto que para aquela turma, especificamente, mais interessa.

Livros e apostilas didáticas apresentam textos amplos, irrestritos e na medida do possível completos, porque seus autores não podem antecipar idéias sobre quais itens dos mesmos interessa especificamente naquele momento, para aquela classe. O que se ensina para alunos cercados pela opressão das grandes cidades envolve ângulos específicos que não são os mesmos que envolvem alunos de um espaço rural. O que cabe a filhos de profissionais liberais a aprender, não deve ser igual enfoque do que se vai ensinar para filhos de pais analfabetos ou de outros que militam na agricultura.

Em todo capítulo de um bom texto didático existe invariavelmente o que é essencial, o que se considera desejável e, muitas vezes, até mesmo informações supérfluas. Mas, sabem que somente o professor, face aos saberes e anseios de seus alunos, é que terão meios de, olhando a complexidade ampla do texto, priorizar o essencial, destacar o desejável e esquecer o supérfluo. Impossível comparação melhor que as estantes da mesa Self-Services.

Esta seletividade de aspectos mais ou menos significativos que se vai ministrar jamais implica que alguns aprendam “mais” que outros; não é assim uma questão de quantidade de informações, mas de uma boa seleção das mesmas em face de realidade dos alunos e os desafios de seus convívios e de seus entorno. O texto desta ou daquela disciplina pode abrigar iguais informações tanto para alunos de Banzaê, na Bahia como para alunos da Vieira Souto, no Rio de Janeiro, mas cabe ao professor e somente a ele, pensar que trabalha com realidades diferentes e assim precisa selecionar nas informações apresentadas, as que mais se relacionam ao olhar de mundo que seu aluno tem. A Lei da Gravidade, por exemplo, é sempre a mesma se ensinada na cidade ou no sertão, se apresentada a alunos dos bairros nobres pela manhã ou da periferia à noite mas, a maneira como vai dominar esse conceito, como devem pensar e aplicar, sintetizar e analisar essa lei em seu cotidiano abriga diferenças exponenciais que todo bom professor sabe enfatizar.

Quando, muitas vezes, ouço professores dizendo que não podem desafiar seus alunos, propor criatividade, ministrar situações de aprendizagens diferentes, com a alegação de que todo tempo útil é essencial para dar “todo” programa. Fico pensando na angústia desse professor, se em fila de self-services com seu prato na mão fosse proibido de escolher e separar o essencial do supérfluo e tivesse que comer tudo, absolutamente tudo, quanto na gôndola existisse. Esse professor, por certo, estaria vendo no alimento o ódio e se colocando a um passo de perigosa indigestão; que ao selecionar o essencial nos conteúdos específicos para alunos específicos possam ministrar aulas gostosas, serenas e úteis onde o aluno aprende como quem degusta com imenso prazer.