BOM DIA 2060

Estamos em 2016 e, portanto, faltam apenas 46 anos para 2060. Quarenta e seis anos pode até ser muito para qualquer pessoa, mas é um nada para a história de um país, apenas um “depois de amanhã” para qualquer nação do planeta. Mais da metade da população brasileira, por exemplo, estará por aí aguardando a chegada desses novos tempos.

Novos tempos? Sim. Novos tempos, pois nesse ano toda a força de trabalho mundial será constituída por pessoas pós internet, isto é, por pessoas que olham a rede mundial como olhamos o chão que se pisa, ou o ar que se respira, isto é, algo que existe, mas sobre a qual não se pensa e nem se percebe. Mas, a internet é muito maior que um chão ou que uma nuvem, representa para a modernidade o mesmo que há pouco mais de cem mil anos atrás representou para a Humanidade a invenção da linguagem.

Com a criação da linguagem a humanidade se libertou de uma vida sem ontem e nem amanhã, como seres humanos que, tal como bichos, viviam prisioneiras de um permanente agora. A linguagem foi à mãe de tudo, de todo progresso e cultura que depois apareceu. Da domesticação do fogo à conquista espacial, da invenção da roda aos atentados terroristas. A existência de toda uma população produtiva pós-internet é o fim da espécie humana e o luminoso surgir de seres pós-humanos que, em pouco tempo, chegarão muito além dos limites do imaginário. Isso será bom? Ou será uma tragédia?

Impossível resposta única. Ao que tudo indica existem dois cenários, um negativo, outro esperançoso. No pior, a geração pós-humana aprendeu a plenitude do navegar, mas perdeu totalmente as formas mais antigas de se comunicar e, sobretudo, de pensar, refletir, meditar. Vivendo de forma acelerada, pensam coletivamente e vivem a integralidade do mundo líquido descrito por Bauman. Admitem novos conceitos de empresa e de família, de relacionamento humano e de perspectiva espiritual. Diferentes, mas como que robotizados pela rotina de fazer amanhã o que ontem se fez.

Mas, resta um fio de esperança.

Essa multidão pós-humana revelou-se capaz de navegar, sem, entretanto, perder a mobilidade no pensar, a inspiração de empreender, a solidariedade gratuita de querer bem ao outro, mesmo sabendo que essa qualidade não lhe garante qualquer tostão. Serão personagens de uma vida ativa e descobrindo que podem usar a tecnologia sem ser por ela usados. Serão cidadãos planetários, guardam seus valores nas nuvens, mas sabem acessá-los com rapidez, usá-los com sabedoria. Talvez, sejamos extremistas e nos recusamos a olhar uma perspectiva intermediária. Fazer o que?

Quem vislumbra com otimismo um novo amanhecer não gosta de imaginar o silêncio soturno de noite, sem luar.