ANGUSTIANTES DORES DE UM PARTO

Épocas de transição são períodos difíceis, angustiantes, amargos. Foi assim nos tempos que precederam o Renascimento, também assim no epílogo da União Soviética e em tantos, tantos outros. São momentos em que uma ordem de ideias e valores começa a morrer na expectativa de outra inusitada ordem, que chega trazendo inseguranças e incertezas, acumulando as angústias por um tempo que precisa deixar de existir, substituído por outro que ainda não nasceu completamente. Constituem dores angustiantes de um parto que traz alegrias, como todo nascimento costuma trazer, mas traz ódios e desesperos devido à inevitável morte contra os quais muitos se desesperam e resistem. É esse o momento em que agora vivemos, são os “tempos líquidos” que Nauman descreve e que chegam à escola brasileira, pública ou particular, da educação infantil ao ensino superior.

A revolução tecnológica e a linguagem da internet propiciaram comparações entre a escola que temos e a que agora se instala com vigor em países mais adiantados. Uma escola que não mais precisa do entulho inútil de um saber cumulativo, agora substituído por um fazer consequente. Morre a escola do saber acumulado, das aulas informativas, dos cursinhos memorativos e das avaliações que prezam a quantidade, e começa a nascer, de forma bela e insinuante, a nova escola do aprender a fazer de modo eficiente, de aulas que cobram protagonismo – ainda que nem sempre presenciais – de laboratórios de ação e pensamentos e das avaliações coerentes, congruentes e significativas, a qual despreza quem apenas sabe e clama por quem materializa o saber por meio do fazer.

No epicentro dessas mudanças, instala-se agora a escola brasileira. Inevitavelmente morre o culto pelo acúmulo do saber e pelo aplauso do escutar, e começa a nascer um pleito pelo agir e pelo empenho no participar. Desaparecem verbos como escutar, copiar, reproduzir e acumular, que são substituídos por outros de plena ação, como pesquisar, argumentar, analisar, pensar e agir. Mas, se mudam os verbos, ainda mais depressa desaparece o discurso expositivo, o livro didático, as carteiras enfileiradas e a escola estabelecida no lugar.

Vivem-se tempos de aulas interativas, participações não necessariamente presenciais, professores que sabem alternar a volúpia da fala pela atenção da escuta, a avaliação do saber retido na memória, por outro que induz a ação, participação plena e criação como resultado inevitável da ação.

Contra essa nova ordem de pensamentos e valores insurgem adversários poderosos, como reprodutores de livros individuais, expositores de programas apostilados e coletivos, mantenedores de instituições sólidas e defensores da velha ordem que muito enriquecia alguns, ainda que “amarrando” os pensamentos. Contudo, ao mesmo tempo emergem aliados serenos que proclamam por uma mesma obra de literatura para todas as disciplinas, escolas fluidas e líquidas para servir a qualquer um, a toda hora. Professores que não proclamam, mas desafiam; alunos que aprenderam a transformar o pensamento em verbo e a fundir o aprendizado com a dignidade de ser. O futuro da nova escola causa arrepios em alguns, mas, como sempre, é força indestrutível, condição inexorável. Dores de parto são amargas, mas será que alguém ainda ousa impedir o futuro de nascer?

 

Artigo publicado na  Revista Profissão Mestre na edição de outubro de 2014.