UMA PROFESSORA DE BELEZAS

A aposentadoria de Maria Izabel causou tristeza na pequena cidade do interior de São Paulo onde, há muitas décadas, lecionava. Todos os moradores da cidade, de uma maneira ou de outra, foram seus alunos e era impossível não se encantar com as aulas de matemática, que transformando números em brinquedos conquistava a todos, mas sobretudo, nas aulas de sextas-feiras, quanto terminava o trabalho com os conteúdos curriculares uma hora mais cedo para ensinar beleza.

Afirmando sempre que sentidos educados percebem bem mais, saía com sua classe pelo pátio, pela estrada, pelo pasto e pela mata mostrando o encantamento das cores e dos aromas, com paciência revelando o segredo da estética para se descobrir o belo. O tato e o paladar, o olfato e a visão eram explorados para descobrirem a presença de Deus em cada folha, o registro do belo em cada momento.

Ao mudarem de série e não mais terem aulas com Maria Izabel, os alunos haviam se transformado para sempre, descobrindo belezas em cada passo, encantamentos em toda parte. Sem nem mesmo saber transformaram-se pelas singelas lições de ética e de estética que acolhiam pelas serras e pelos campos de aprendiam a olhar. Para seus alunos os regatos e as cachoeiras, as flores do mato e os velhos troncos, os caminhos pisados e os campos arados se faziam paisagens de beleza infinda, tristemente oculta para sentidos sem seu habitual treino e que por isso confundiam “olhar” com “ver”, “escutar com ouvir”, “falar” com “dizer”.