UMA FALSA EDUCAÇÃO – PALESTRA MOTIVACIONAL

Meu nome é Arquibaldo, tenho 35 anos e ontem assisti a uma palestra motivacional.

Adorei! Em pouco mais de uma hora o comunicador, por sinal excelente, em meio a anedotas e momentos de culto, dança e canto, ensinou-nos que toda perspectiva de sucesso profissional se inspira na capacidade de desenvolver intimamente o sentimento de autoestima. Como explicou e provou, temos que ser otimistas, eufóricos, confiantes e, sobretudo, acreditar e soltar o espírito guerreiro que habita em cada um de nós. Mostrou-nos que somos maravilhosos, mas temos uma fera presa no peito e que aguarda soltura.

Achei seus sábios conselhos geniais e, disposto a seguir tão sábias dicas, deixei o salão com peito estufado, barriga para dentro e deslizei pelo corredor em busca de minha coragem interior e da convicção plena que sou uma fera e quem na terra entre elas vive, precisa se sentir que é fera também. Descobri como minha vida é maravilhosa, apanhei meu fusca no estacionamento (um roubo… 15 mangos apenas pela primeira meia hora) e voltei para casa. Descobri que minha mulher não é nenhuma dessas gostosas meninas que passam o dia malhando, mas que diabo, também não sou nenhum George Clooney e não é por isso que devo baixar minha autoestima. Para evitar briga e lamúrias de sempre, inspirado na palestra e com um com ar superior, pouco falei, fingi que tudo escutei e sentindo-me Tarzan dos Macacos fui dormir.

Acordei, tomei o café de bule que eu mesmo tive que fazer, devorei depressa o pão de anteontem, sem ninguém para me servir e fui trabalhar. Saí de Jardim Ângela pensando que é quase igual o Jardim América, cruzei carros do ano que com buzinações falavam mal minha lentidão e, com um atraso de meia hora que vai virar desconto, cheguei ao trabalho, que infelizmente não é em nenhum Ministério. Estacionei onde pude, pois na empresa somente a chefia tem lugar reservado, e ao lado de fuscas iguais ou pior que o meu, corri para me espremer em lugar no elevador. Subi até o sexto andar, onde fica a firma, ao lado de pessoas que vestiam Armani ou Hugo Boss, cheiravam essência francesa e olhavam com desdém minha amarrotada, mas limpinha calça jeans e camiseta Lacoste da Vinte e Cinco de Março, que ainda não paguei. Antes de pegar o batente, filei outro café de coador meio frio, acompanhado de água torneiral, pensando na chefatura que em sala com ar condicionado escolhe com frescura o sabor de seu café. Sinceramente senti pena dessa turma sem qualquer autoestima. Ricos apenas por fora… Coitados.

Sentei em minha mesa, abri meu computador matusalém, dei uma tapinha na tela para acender e dei graças a Deus que ainda não é pior que o do Rivaldo. Pelo vão da persiana que mal fecha, olhei o escritório do andar vizinho com ar condicionado e executivo, geralmente gringos, com tabletes na mão discutindo planos estratégicos, conjunturais e sistêmicos. Fecho os olhos e ainda com a palestra motivacional na cabeça, sonho com a promoção que há três anos sonho. Quatro horas depois, suado em bicas, corro para o quilo mais próximo e mais em conta, dou uma roubada de leve na batatinha, e engulo espiando pela janela os gringos item almoçar no belo restaurante em frente, onde, coitados, pagam com um cartão corporativo. Volto ao escritório correndo, trabalho como louco e, se ninguém está olhando, dou uma fugida para, na mesinha do corredor, roubar um café frio da garrafa térmica da Maria Joana.

Saio esgotado, esnobo a academia onde outros se esfolam, enfrento o trânsito pesado, engulo a barriga e entro em casa para ouvir discursos sobre contas que ainda penduradas e mal criações do Rodriguinho que precisa jeito.  Jogo-me na poltrona furada e assisto as notícias sobre crimes e ônibus queimados.Morto de cansado e banhado de suor preciso dormir, pensando como foi boa a palestra que me ensinou a cultivar minha linda e eloquente autoestima e mudou minha vida para sempre. Impossível dinheiro melhor empregado.