Um tímido e furtivo riso…. Nada mais.

Com angustiante ansiedade e com tímida esperança, espero por uma mensagem ou telefonema que solicitem a honra de uma a indescritível alegria para proferir mais uma palestra.

Inequívoca prova que ainda vivo, inquieta esperança de ainda sou capaz, após os incidentes últimos. A longa experiência de professor permitiu que acumulasse muitos temas e, dessa forma, quando minha eficiente e dedicada Secretária atende, após aferir local, data e outra informações, indaga pelo tema escolhido pelos solicitantes, geralmente professores ou gestores. Dias atrás, entretanto, chegou solicitação inédita, original, incomum: Deveria deslocar-me até Carapicuíba, na Grande São Paulo, onde mãe, em justificada angústia e seu filho, de Brasília, me procuravam para uma consulta sobre a educação do garoto, portador da Síndrome de Down. Surpresa… Espanto… Natural insegurança.

 

Acreditei em engano, afinal não sou médico e, assim, é tema que como educador me preocupa, mas muito distante de minhas limitadas capacidades de experiente e velho professor… Mas….como era impossível a recusa, preocupado, fui ao seu encontro, e conheci Rafael, nove anos segundo me informou, sua amargurada mãe. Os sinais e os traços relativos à síndrome eram evidentes e bastou segundos para perceber que seu caso era de moderado para agudo.

 

Busquei conversar, interagir, brincar e o Rafael, alternando riso e seriedade, gestos e palavras nem sempre compreensíveis, mostrou-me soberana e incomparável alegria de viver. Não parou por um segundo senão para com palavras confusas ou gestos nem sempre compreensíveis conversar, argumentar, sugerir, inventar mímicas, enfim fazer de cada segundo desse fugaz encontro mostra de seus evidentes sintomas ao lado de uma felicidade exuberante. Seria impossível inventar o diagnóstico esperado. Desejo que a atenciosa mãe de Rafael possa perceber e descobrir que sonho algum é mais alto e mais sublime de ver em seu filho a alegria irresponsável e travessa exuberância de ilimitada felicidade de ser o que é, de ser como é. Jamais saberei se frustrou-se ou se compreendeu o que disse, mas ao voltar para casa, comigo mesmo conversando, perguntava-me se existe aos pais, todos os pais deste meu mundo, estejam onde estiverem, descobrir em seus filhos e filhas que inteligência, esperteza, serenidade, alegria, medo e todos demais sensações ou emoções representam momentos fugazes, quando se percebe uma criança, que até pode parecer a quem a assiste vinda de outro planeta e, assim, não bem compreendida por pessoas comuns, mas em sua íntima solidão sente-se ilimitadamente felizes.

 

A autêntica felicidade é tudo e é impossível pensar em educação mais digna, plausível, sublime… magnífica. Soube depois, pela Fabiana, que após minha partida, Rafael disse que gostou muito de mim. Jamais esquecerei homenagem mais intima, prêmio maior, inesquecível.