UM NOVO ENSINO MÉDIO

Eu e Wanda moramos no bairro da Chácara Santo Antônio, na zona sul da cidade de São Paulo. Não temos empregadas e não encontramos justificativas para fazer almoço em casa. Quando muito, um jantar vez ou outra. Na maior parte das vezes saímos para almoçar nas proximidades, área cheia de diversificados tipos de restaurantes, por sua inequívoca vocação de profissionais do Setor Terciário. Com frequência notamos almoçando e conversando ao nosso lado muitos estrangeiros: latino-americanos, europeus e não raramente orientais. Não nasceram no Brasil, mas vieram trabalhar em São Paulo atraído pela oferta ampla de empregos e bons salários. São sempre bem vindos e necessários, mas expressam a calamitosa falência de nosso Ensino Médio. Com não preparamos os alunos para outra coisa a não ser a falácia de um Ensino Superior bacharelesca onde faltam profissionais da saúde e sobram advogados e administradores é gritante a carência de mão de obra técnica. Esses jovens migravam e muitos atravessam o oceano em busca de empregos que a expansão econômica do país reclama, e ocupam vagas interessantes que uma multidão de brasileiros não possuem condição para ocupar. Atuam profissionalmente servido outros que em outros países possuem ensino Médio ou Superior que efetivamente envolve competência. Nosso Ensino Médio é uma calamidade e, por isso, assistimos entristecidos jovens brasileiros servindo, com salários inferiores, colegas seus de outras terras que puderam aprender o que aqui não se aprende. Como resolver o problema: Simples. Uma mudança radical e imediata nesse nosso fraquíssimo Ensino Médio e em inúmeros setores do Ensino Superior que fornecem diplomas, jamais competências.

Quando se fala em mudança, alguns modelos exitosos são analisados: Por acaso, a high school norte americana? Quem sabe o modelo francês que por muito tempo foi paradigma de currículos brasileiros? Ou o nostálgico retorna a nos mesmos nos tempos de cursos “clássicos”, “científicos” e “comerciais”?  A melhor reposta parece ser nenhum deles, ainda que com os mesmos muito se tenha a aprender. Com o Ensino Fundamental que se propõem no Brasil, nossos alunos se perderiam nos incríveis labirintos de centenas de disciplinas do modelo norte-americano; escolas diferenciadas conforme o modelo europeu e de acordo com o perfil do aluno entraria em conflito com as “disciplinas” suscitadas pelo ENEM e o retorno do currículo a tempos atrás é naturalmente mais enxuto e melhor que a absurda diversidade de disciplinas do atual, mas ainda não é o ideal. Assim, uma imperiosa necessidade de mudança que pudesse aproveitar os sucessos da implantação do ENEM provavelmente nos conduziria a um modelo prático e realista, desde que nossas Instituições de Ensino Superior deixassem de lado seus vestibulares que cobram tudo do que nada efetivamente usam depois do ingresso do aluno.

Assim, o novo currículo do Ensino Médio e, algum tempo depois, os vestibulares das Instituições de Ensino Superior poderiam se abrir em cinco braços, contemplando a Redação com as quatro disciplinas básicas de ENEM (Ciências Naturais e Humanas, Linguagens e Matemática) e um braço alternativo para abrigar todos quantos não se interessam pelo Ensino Superior e seriam avaliados por um programa com linhas de trabalho e competências explícitas dessas necessidades prementes do mercado. Com isso, o foco da escolha dos alunos passaria ser a empregabilidade e não a tradição e o país não estaria deixando de formar com qualidade bacharéis e bons profissionais.

Mudança corajosa, mas não impossível. Meio para que muitos jovens egressos do atual Ensino Médio disputem bons empregos e bons salários com os que migram de seus países para aqui encontrar o que o nosso aos nossos estudantes ainda não aprendeu oferecer.