UM DIA COMUM E UM FILÓSOFO COMO OUTROS TANTOS

Um bar como outros tantos que por aqui existe, perdido no meio do bairro, logo na esquina, defronte a um enorme posto de gasolina. Na estreita porta do estabelecimento, sentado em velha cadeira, chapéu de feltro empurrado para trás, cigarrinho pendurado na boca, lá estava o filósofo, que nem em sonhos assim se acreditava. Ao seu lado haviam outras pessoas; o vendeiro e mais três ou quatro atrás do balcão. Em outro canto estavam pai e filho, ele tomando uma cachaça e o menor mordendo com fúria um doce de leite que parecia pequeno demais para boca tão grande.

 

Tudo quanto eu ouvia misturava timbres e pareciam vagar do futebol para a política, do banal cotidiano aos sonhos que jamais se concretizam. De repente, um dos frequentadores comentou que a vida de pobre não valia mesmo a pena e que era injusto trabalho e aborrecimento demais para salário tão curto e para vidinha tão besta. Os que o ouviam pareciam pensar com respeito e admiração, quando o filosofo encostado na porta do boteco falou.

 

Frase breve, não mais que meia dúzia de palavras, dizendo que o Sol era bonito e de graça, que via a noite como uma noiva linda e sublime que ninguém se acostumara a reparar. Falou ainda de crianças como aves soltas que buscam descobrir risos e sonhos.

 

Em verdade pareceu não ter falado para ser ouvido, sequer desviou os olhos para qualquer ponto do infinito, nada disse para ninguém. Não foi saudação, menos ainda crítica, mas teve o impacto de me surpreender. A conversa morreu por si mesmo e sobre o que disse, creio nem ele mesmo pensou.

Eu, entretanto, não parei de pensar no filosofo, na sua lúcida visão do tempo, do espaço, da beleza do mundo, do encanto da vida. Não fosse quem era, e eu mal sabia quem ele era realmente, e que não se daria ao trabalho de filosofar. Mas, colhido de surpresa pelo singelo pensamento, voltei para meu caminho pensando que Deus poderia ter feito de mim um inseto, uma pedra, uma folha que no inverno cai e se assim fosse me seria vedado sentir a linguagem infinda das estrelas, o clamor repousante dos raios do sol, secando orvalhos da noite.

 

Nada comentei, mas não parei de pensar. Deixei o filósofo encostado na parede, como rosto curtido pela luz do sol e, feliz voltei pelo meu caminho, sentido com é legar ser. Sou mais que uma pedra, bem mais que um inseto. Ganhei o meu dia…