SER UM UNIVERSITÁRIO

Ser um universitário no Brasil é privilégio, situação incomum, condição proporcional de poucos, muitos poucos. Privilégio econômico dos que nasceram em famílias que puderam optar por boas escolas, privilégio dos nascerem com mentes mais abertas e maior sagacidade cultural que os levaram a um excelente ENEM ou ainda privilégio de bom emprego em que seja possível reservar uma parte do salário para custear estudos em faculdades particulares. Não importam, assim, as razões são inúmeras, mas a condição de ser privilegiado é estatisticamente, indiscutível e se um jovem que faz ou fez curso Superior no país olhar em volta não terá dificuldades em perceber que desfruta de situação singular a, pelo menos, uma dezena de outros jovens.

Mas, é impossível se iludir. Ser representante de uma exceção em nosso país não é tarefa fácil. Ao contrário, sintetiza compreender e assumir uma missão que envolve abnegação, resiliência, esforço contínuo e, sobretudo, reflexão, muita reflexão. É assim levando em conta esse aspecto que este texto busca singelo sugerir linhas de pensamento e ação e estas, acreditamos se inspiram em pelo menos quatro fundamentos que representam estrutura de tal forma segura que, a falha em um deles implica em inevitável comprometimento de outros tres, mais ou menos, como as pernas de uma cadeira comum. E quais seriam esses fundamentos?

O primeiro é fazer-se em todas as oportunidades um verdadeiro aprendiz e, dessa forma, aprender sempre, em cada lugar, em todos os momentos. Aprendizagem que por certo envolve cuidado com seu corpo e sua mente e, assim, domina conteúdos sobre como mantê-los saudáveis, ativos, dinâmicos no enfrentamento da lida, nos embates da vida. O segundo fundamento implica em ampliar ilimitadamente o universo relacional e, dessa forma, se aprofundar na descoberta do outro – real ou virtual – percebendo em cada individualidade a existência de um senso e de um consenso. O esforço relacional, de certa forma, completa o sentido do aprender a aprender sempre e, portanto, torna-se essencial a ampliação dos limites do universo vocabular, a compreensão da etiqueta como fundamento da empatia e, sobretudo, a percepção de se ver como personagem que apenas passa pela vida e que, dessa forma, deve lutar e garantir em toda sua plenitude a sustentabilidade de seu planeta. Não existe forma mais serena de amar o próximo, senão de a eles e aos que chegarão a garantir a integridade da mesma terra que nos acolheu.

Esse segundo pilar complementa os dois primeiros e, dessa forma, quem aprende a aprender e aperfeiçoa sua forma de se relacionar estará, certamente, pronto para transformar o saber em fazer, materializar o avanço cultural no empreendedorismo de produzir sempre. Impossível Cervantes sem Dom Quixote, inimaginável Beethoven sem a Quinta sinfonia. Assim, pois, se ser universitário implica no aprender a aprender para melhor se relacionar e saber fazer, essa condição se solidifica com a mais difícil e mais nobre que é aprender a ser e, assim, definir seu projeto de vida, abrir-se à espiritualidade e carregar a convicção sobre seus valores onde quer que vá, com qualquer outro ser humano com que cruze.

Ser um universitário ou uma universitária, em síntese, é deixar de ser apenas gente para ser pessoa, trocar a manada pelo respeito à individualidade e, assim, assumir a plenitude de viver entre bilhões de seres humanos e ainda assim ser único.