Ser leitor…

Eu corri o mundo inteiro, diversas vezes mudei de vida, assumi outros nomes, muitos nomes.

Fui poeta, romancista, cronista, cantor. Vivi aventuras incríveis no Himalaia, no Afeganistão, nas selvas da Amazônia e nos campos cerrados do Brasil Central. Banhei minha fronte nas águas do Mediterrâneo e mergulhei nas profundidades do Pacífico. Repousei em ilhas do Atlântico e do índico. Entrei em guerras, enfrentei batalhas. Minha alma, uma porção de vezes, se feriu.

Bebi em tavernas taciturnas e, na Itália, ajoelhei-me no túmulo de Dante. Estive na Grécia de ontem e de amanhã e no Japão, escalei o monte Fuji. Fiz-me vagabundo sem pátria, poeta aos setenta anos e libertino aos quarenta.

Sentei-me à sombra de múltiplos sois, beijei lábios arrojados ou tímidos de mulheres de toda parte. Peregrino errante, sofri a agonia de poeta, o anseio de romancista, a violência ferina de críticos incompreendidos. Enfrentei areias escaldantes, secura em desertos gélidos e naufraguei em abismos imensos. Subi às estrelas mais distantes, desci a profundidades infindas. Jamais recuperei-me da febre da embriaguez e da lucidez de um vagabundo que, errante pelo deserto, ainda assobia em tímida surdina.

Isso tudo, sem sair de minha casa, sem apanhar aviões ou navios. Apenas porque sempre fui, sou e serei um singelo leitor. Nada mais, nada além.