QUASE OITENTA?

Dias atrás, ao pagar e sair do táxi que me conduzira em uma viagem repleta de conversas tolas e desvairadas, o motorista perguntou pela minha idade.

– Setenta e Nove, disse eu. E em seguida desci.

Em pé, na calçada, refletindo sobre a resposta que dera e, baixinho e para mim mesmo, repeti: Setenta e nove, às portas dos oitenta anos e, timidamente, uma dúvida nasceu: Como foi possível sobreviver?

Para crianças que nascem hoje, rodeadas de prevenções e cuidados, cercadas de antibióticos e revigorantes vitamínicos, chegar onde cheguei, sinceramente, não parece tarefa imensa. Mas…, viver tanto quanto vivi uma infância em que o ponto mais avançado da medicina mal chegava ao mercúrio cromo ou elixir paregórico, em tempos que quando se andava de carro não se sabia o que era cinto de segurança e que nem se imaginava o que poderia ser “air bags”?

Como explicar tantos anos de vida quando se matava a sede em torneiras de jardim, onde brincar significava descer ladeiras em carrinhos de rolimãs, em que se comia fruta sem lavar e, quando muito, se tirava o bicho da goiaba com os dedos? Como evitar vírus e bactérias quando felizes e imundos, se jogava botão pelas calçadas e jamais se imaginava vestir capacete para voar em nossas bicicletas? Quando arranhões inevitáveis no futebol se curava com álcool friccionado sobre a pele raspada? Sobreviver mesmo passando a maior parte do tempo se arranhando nas árvores, pulando de galho em galho? Como resistir ao perigo sorrateiro do lanche compartilhado e que chegava embrulhado em papel sem qualquer esterilização? Como não ser eletrocutado ao se empinar pipas embaixo de fios da rede elétrica? Com escapar da fúria da vizinhança nas casas em que se tocava a campainhas para depois, correndo se esconder? Sobreviver mesmo jogando taco em ruas feitas para carros e carroças?

Setenta e nove anos? Como chegar assim tão longe tido vivido infância não esterilizada, brincadeiras descuidadas, riscos eminentes e banhos frios e ainda assim somente ao anoitecer? Como explicar a sobrevivência vivida em tão linda infância e ainda agora suportar esta imorredoura saudade?