QUANDO OS MODELOS ATRAPALHAM

 

Imagine sentados em uma mesa um advogado, um médico, um arquiteto, um contabilista e um professor. Caso prefira, deixe o professor e escolha outros quatro profissionais de outras áreas quaisquer e indague a eles, com quantos especialistas da sua área tiveram contato antes de buscarem sua formação.

A resposta é fácil antecipar. Seja qual for à carreira escolhida é grande a probabilidade de que antes de se iniciar na mesma se tivesse apenas eventuais contatos com profissionais dessa área, circunstância que evidentemente difere muito para o caso do professor. Encare seu caso pessoal, por exemplo: quantas vezes antes de se iniciar na profissão travou contato com advogados? Ou com arquitetos? Mas, com quantos professores você se relacionou antes de chegar ao magistério?

Essa circunstância enfatiza que a maior parte dos profissionais existentes no mercado não chegaram a ele inspirados em modelos vividos, mas na essência do que aprenderam em seus estudos sobre essa profissão, mas tal condição jamais ocorre com o professor que ao buscar sua carreira, por certo, conviveu com centenas de diferentes professores e ainda que inconscientemente introjetaram modelos que acabam esculpindo seu jeito pedagógico de ser. Sem nem mesmo perceberem, buscam a profissão já com posturas de ação incorporadas para fazer a seus alunos, aquilo que a eles na ação profissional foi feito e despertou admiração ou surpresa.

E isso é mau? Claro que sim! Por melhor que, por exemplo, tivesse sido um médico há trinta ou quarenta anos atrás, seria um profissional absolutamente desatualizado face aos novos recursos e as incontestáveis conquistas da medicina atual e um bom médico hoje em dia somente o é porque se acha sintonizado integralmente com seu tempo e com os recursos que o caracterizam. O mesmo pode ser aplicado no caso de professores. Há trinta ou quarenta anos atrás, a concepção do que era um “bom” professor é absolutamente diferente dessa concepção nos tempos de agora.

Naqueles tempos, importante era dominar conteúdos e transmiti-los para que fossem os mesmos memorizados; era desenvolver uma avaliação somativa e aprovar ou desaprovar alunos pela capacidade de armazenarem informações, era ministrar aula mantendo os alunos em silêncio e suposta atenção. Hoje em dia, essas posturas docentes são ainda incontestáveis?

Será que bom professor não é todo aquele capaz de transformar informações em conhecimento? Àquele capaz de despertar competências, estimular inteligências? O professor que sabe valorizar o diálogo e promover situações de relações interpessoais? O interrogador, desafiador, propositor de problemas? O profissional que, efetivamente, sabe construir saberes a partir da representação de seus alunos? O mestre capaz de trabalhar a partir dos erros e dos obstáculos à aprendizagem? Todo aquele capaz de ensinar o aluno a usar a integridade de seu cérebro através de diferentes habilidades operatórias? O bom professor não quem é capaz de construir e planejar dispositivos e sequências didáticas e de envolver os alunos em pesquisas e em projetos, administrando a progressão da aprendizagem? Não representa condição inconteste de qualidade docente conceber e fazer evoluir os dispositivos de diferenciação?  Ser profissional eficiente em educação não é se mostrar capaz de seduzir seus a alunos a se envolverem na aprendizagem e, portanto na reconstrução e compreensão do mundo? Ser plenamente apto em perceber novas formas de se pensar e trabalhar o currículo permitindo que os estudantes possam dominar e fazer uso de novas tecnologias e assim vivenciar e superar os conflitos de seu entorno e da relação interpessoal de seus integrantes? Conhecer diferentes estratégias de ensino, dirigindo diferentes situações de aprendizagem?

Nada temos contra modelos e será sempre válido e reconfortante mantê-los em nossa lembrança, mas antes de incorporá-los existe a certeza de que os tempos são outros e de que nada faz mais por um bom profissional que, efetivamente apreender a filosofia e a essência de uma profissão e exercê-la de acordo com as mensagens e os recursos de seu tempo.