PROFESSOR IMPRESCINDÍVEL

A afirmação causou espanto e perplexidade.

Mesmo partindo de Tonhão, simplório e falastrão, o que acabara de dizer deixou seus amigos de conversa atônitos, perplexos. Em meio a habitual conversa entre colegas em que futebol e mulher, não necessariamente nessa ordem, são os assuntos do momento, afirmar com convicção que era um “Lésbico” deixou a todos quase mudo. Após, segundos, completou: “É que eu gosto somente de mulheres, prefiro as mulheres, não suporto namoro que não seja por mulher”. Desfeito o impacto de sua primeira informação, os amigos entre risadas, explicou o sentido sexual da palavra “lésbica” e a inadequação em ser a mesma usada por um homem. Tonhão, envergonhado, corrigiu-se, mas o fato pitoresco envolve um importante, e quase nunca lembrada, importância do verdadeiro “terremoto” causado na mente humana pelas conclusões possíveis por uma palavra cujo sentido não se conhece. Essa possibilidade nos remete a analisar um importantíssimo papel da formação dos professores, sobretudo os que ministram aulas para crianças ou para alunos da Educação de Jovens e Adultos.

O grande e imprescindível professor é todo aquele capaz de abdicar de “seu” vocabulário e expressar ideias, pensamentos e conceitos compreensíveis e, portanto, segundo o vocabulário de seus alunos. O descuidado na regência de uma aula a esse preceito pode levar alguns menos tímidos a interrogar o professor solicitando o sentido da palavra usada, mas a maior parte dos mesmos, envergonhados por essa singela ignorância, não compreendem o contexto pleno da explicação e, assim, trata de memoriza-la. A perfeita adequação das palavras do mestre ao nível vocabular e compreensivo do aluno deve fazer do primeiro o papel de um verdadeiro “tradutor” vertendo, sempre que necessário, para a linguagem do estudante o texto que se encontra em seu material escolar. Fui autor de livros didáticos por mais de vinte anos e ao redigir um texto não poderia imaginar qual seria o nível vocabular dos alunos filhos de seringueiros e barranqueiros, moradores de comunidades indigentes ou ainda emersos de um universo vocabular distante do meu. Por essa razão sempre pensei em escrever textos para o professor, na esperança de que este frente a frente com seus alunos pudesse como que o traduzir para a efetiva compreensão de sua turma e que, portanto, respeitasse seu muitas vezes restrito universo vocabular. Mas, mesmo com esse cuidado, não raramente descobria alunos que não compreendiam uma parte do texto, não por sua complexidade, mas pelo uso de palavras e expressões que lhe eram desconhecidas. Impossível acreditar, assim, uma aula ministrada para crianças do matutino possa ser literalmente, igual à outra para alunos matriculados na mesma série, mas frequentadores do curso noturno, ou então, supor que alunos que pertencem a categorias sociais diferentes apresentem as mesmas perspectivas vocabulares.

É por essa razão que o cuidado essencial do professor, da educação infantil ao do curso Superior é conhecer em profundidade “o que” falam seus alunos, “como” falam e de quem maneira se utilizam da bagagem conceitual que carregam e a empregam na conversa do cotidiano, nas expressões que usam para falar de sexo ou para comentar futebol. Difícil definir todos os atributos essenciais a um professor verdadeiramente imprescindível, bem mais fácil, entretanto, é descobri-lo como magnífico tradutor não de uma para outra língua, mas de sua para outras linguagens.