O QUE É EDUCAR E COM QUANTOS PRINCÍPIOS SE CONSTRÓI UM EDUCADOR EFICIENTE?

Não existe única resposta para essa questão.

Equivale a se indagar qual a diferença entre professor e educador e a idéia de uma das muitas respostas possíveis envolve a necessidade de se regredir no tempo para perceber que desde quando se formaram as primeiras comunidades com alguma organização cultural, já existia uma preocupação em se conservar e transmitir os saberes acumulados, para que as novas gerações se poupassem dos erros possíveis e superados com a aprendizagem. A idéia de educação, portanto, se associa a essa preocupação e o vocábulo educador, envolve os que na comunidade chamavam a si com mais propriedade essa função de transmitir e viabilizar saberes. Considerando assim que toda comunidade visava sua conservação, nasceu a escola como espaço privilegiado de transmissão do acervo civilizacional.

As escolas, portanto, desde quando pela primeira vez surgiram, apareciam abrigando em suas finalidades uma contradição: era necessariamente conservadora pois só assim transmitia o apreendido, mas precisa ser ao mesmo tempo inovadora para garantir a criação e assegurar progresso. Na escola, antes como agora, se integram e se abraçam finalidades díspares: preservar e inovar. Uma boa educação e, portanto, uma boa escola, um bom professor, uma boa aula ocorre sempre quando esse equilíbrio se manifesta.

Ainda que simples de se expor, não é fácil colocar esse equilíbrio em prática e essa dificuldade faz com que se descubra em quase todos os sistemas educacionais do mundo escolas que se dizem inovadoras e que atraem tantos adeptos quanto as que se afirmam conservadoras.

Mas, não é apenas esse conflito que a educação abriga.

Cabe a escola democraticamente educar a todos, mantendo a todos os níveis de exigência e de rigor compatíveis com o sentido da educação, mas simultaneamente cabe a escola privilegiar os que melhor se destacam, garantindo-lhes oportunidades para que sua criatividade não se esbarre em limites. Como conciliar a melhor educação para os melhores e a melhor educação para todos. Ainda uma vez, a boa educação, a boa escola, o bom professor e a boa aula necessitam buscar mais esse equilíbrio, jamais limitando a criatividade e nunca negando a igualdade de oportunidades.

Na descoberta desses dois conflitos e na certeza de que é essencial a busca do equilíbrio, já se começa responder o que significa educar, o que é um educador. Educar é conciliar esses conflitos, equilibrar essas oposições. Mas, não só isso.

Como educar não significa apenas transmitir o legado cultural às novas gerações, mas também ajudar o aluno a aprender o aprender, despertar vocações, proporcionar condições para que cada um alcance o máximo de sua potencialidade e, finalmente, permitir que cada um conheça suas finalidades e tenha competências para mobilizar meios para concretizá-las, chega-se ao sentido estrutural da questão: o que significa educar. Em síntese: aprender a conhecer, fazer, viver junto e aprender a ser.

Essa idéia que se faz de educação recebeu forte subsídio com um novo papel da Educação que se discutiu em Jomtien, em 1990, em uma Conferência Internacional sobre Educação promovida pela UNESCO, quando se produziu o documento “A Declaração Mundial sobre a Educação para Todos”

Nesse documento se ressaltava que o compromisso essencial da Educação, se compunha de quatro aprendizagens essenciais:

  • Aprender a conhecer. Quem aprende a conhecer, em última análise aprende a aprender e dessa forma dominar competências para assumir o legado cultural conquistado como instrumento de reflexão e de ação e não apenas como domínio de informações pré-organizadas.
  • Aprender a fazer. Reitera a certeza de que é a escola um espaço para estímulo e aprendizagem de competência para o trabalho, não como sinônimo de profissão, mas como domínio de habilidades essenciais a geração de bens e de riquezas, mas sobretudo de realização pessoal e construção social.
  • Aprender a viver junto. Retirar da Escola a imagem de um espaço competitivo, onde se destacam e são aplaudidos os melhores, transformando-a em ambiente onde se ensina solidariedade, onde o aluno aprende a se conhecer e conhecer e respeitar integralmente o outro.
  •  Aprender a ser. Envolve uma idéia ampla de autoconhecimento, onde se descobre que a educação necessita preparar integralmente, portanto espírito e corpo, inteligência e sensibilidade, sentido estético e responsabilidade pessoal, ética e espiritualidade.

Percebe-se assim que a escola é o instrumento e o espaço que as sociedades com certa complexidade cultural encontram para produzir a educação.

O quadro abaixo, reafirma esses fundamentos:

A EDUCAÇÃO EM UMA ESCOLA QUE TEM COMO EIXO CENTRAL O PROFESSOR E O ENSINO                                                                               A EDUCAÇÃO EM UMA ESCOLA QUE TEM COMO EIXO CENTRAL O ALUNO E A APRENDIZAGEM      
Existe a preocupação em se transmitir o legado cultural as novas gerações, passando-os como um saber exterior, pré-organizado e hetero produzido.
Não se cogita da idéia de que o autoconhecimento constitui fundamento essencial da aprendizagem

 

Existe a preocupação em se transmitir o legado cultural as novas gerações, fazendo do mesmo um instrumento de reflexão, criação e ação em busca da prosperidade social. O aluno ao aprender se conhecer, aprende a aprender
Angustia-se entre o dilema de ser “conservadora” ou de ser escola “inovadora”, radicalizando uma ou outra posição. Prevalece o compromisso de saber equilibrar a tradição com a inovação, o direito a todos e o respeito e estímulo ilimitado aos mais aptos.
A vocação é responsabilidade específica do aluno e de sua da família e a escola não interfere nas opções vocacionais de seus alunos. Separa a aspiração intelectual da ação prática. Não é elegante se ensinar o “fazer” Busca insistentemente despertar vocações, estimulando competências essenciais para o mundo do trabalho.
O aluno aprende o fazer.
Busca situar o aluno em seu tempo, mas o faz difundindo conhecimentos pré-fabricados e impondo normas e convenções exteriores à realidade objetiva de seus alunos Procura situar o aluno em seu tempo e o faz reconstrutor do espaço onde vive e onde busca a aprender a conviver. A idéia de convívio se associa ao sentimento de empatia e a importância do “viver com” (o outro) como paradigma do conviver.
Assume uma posição francamente cognitivista e, dessa forma, estrutura conceito de aprendizagem que envolve apenas ao corpus de conhecimentos das disciplinas do currículo. Estimula não apenas a potencialidade cognitiva nos alunos, mas também sua capacidade de administração dos sentimentos e emoções, envolvendo-os na compreensão de valores e virtudes essenciais a busca de um mundo melhor. O aluno aprende a ser.
Não existe a preocupação em se formar uma “consciência” ecológica, ministrando-se apenas informações sobre o ambiente e sua preservação. Assume a consciência de sua responsabilidade ecológica e propaga propostas e meios para o desenvolvimento sustentado e a preservação ambiental

A análise da aula que transmitimos e a forma como pensamos nossa responsabilidade perante o aluno, o colega e a sociedade de uma certa forma permite um confronto dessa ação com o lado direito do quadro acima e permite que se tenha resposta a questão:

– Sou professor (transmito informações, passo instruções, quantifico resultados) ou sou educador?

Uma forma mais simples de se buscar a coerência dessa resposta, pode se situar em uma auto-analise de nosso trabalho cotidiano, permitindo que venhamos a nos situar no acróstico seguinte:

E –     Possuo “empatia”. Sou capaz de sentir o aluno em mim, percebendo-o não como cliente, mas como um ser em construção que precisa de meu auxilio para aprender a aprender, descobrir-se e aprender a ser?

D –     Busco crescer em minha capacidade “Didática”. Estou seriamente empenhado em descobrir meios para fazer de minha aula um efetivo instrumento de construção de saberes, de aflorar de competências? Ensino, realmente, meu aluno a fazer?

U –     Procuro perceber minha responsabilidade como membro de uma equipe. Percebo que a “União” constitui ferramenta essencial de um ensino eficiente. Não apenas ajudo meus alunos, mas me aprimoro sempre na busca de cada vez mais aprender a viver junto?

C –     Tenho plena “Confiança” em meu aluno. Sou capaz de perceber que suas dificuldades e suas limitações decorrem menos de sua, mas da minha condição de educador. Se algum aluno não aprende com meu jeito de ensinar, sou criativo para ajudá-lo em seu jeito de aprender?

A –     Assumo plenamente meu papel de um “Administrador” de competências. Efetivamente minha aula ensina o aluno a perguntar, investigar, pesquisar, comparar, analisar, sintetizar, classificar, aplicar. Enfim a exercer a plenitude da sua capacidade em aprender?

D –     Estudo sempre os conteúdos que ensino. Tenho pleno “domínio” sobre os saberes que envolvem as matérias transmitidas em minhas aulas. Sei não apenas o que informo, mas descubro estratégias para transformar informações em conhecimento?

O –     Sou realmente “otimista”. Creio que não existe educação sem transformação, mas acredito em meu poder transformador de meus alunos, não apenas pelos saberes da disciplina que aprende a contextualizar, mas pelos valores que exercita?

R –     Domínio de estratégias de “Relações interpessoais”? O educador jamais pode abdicar de sua responsabilidade de ajudar seus alunos a fazerem-se amigos de si mesmo e construírem relações de amizades com outros e para que isto ocorra não basta a intenção, é essencial saber “quando” e saber “como fazer” e esse fazer implica em conhecer procedimentos para promover relações sólidas e significativas entre o alunado.

O educador não nasce pronto.

Forma-se ao longo de sua própria caminhada de professor, observando em sua experiência esta ou aquela ação, este ou aquele cuidado. É por essa razão que esse acróstico serve menos como ilustração e mais como proposta de inicio de uma auto-avaliação. Ao repensar sua prática pedagógica, espera-se que o professor pontue cada uma das letras que formam esse acróstico, descobrindo em quais está pronto e em quais é essencial evoluir. Com esta intenção, descobrirá que o acróstico é incompleto e que um verdadeiro educador agrega a sua ação, ainda outros procedimentos. Mas, com serenidade saberá identificá-los e incorporá-los, distanciando-se cada vez das rotinas de Professáuro.

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