MONÓLOGO I – INCLUSÃO

Meu nome é Felipe. Não sou muito popular, mas sou feliz. Tenho poucos amigos, mas entre eles o meu amigo mais verdadeiro, amigo do peito mesmo chama-se Guilherme.

Guilherme é eslovaco, não entende o que falo e eu nada entendo de sua língua. Caramba sou brasileiro e sei falar o português e ainda arranho algumas palavras em outras línguas. Mas a língua de sua terra é demais para mim.

Mas, não falar a língua de Guilherme e ele não falar a minha não impede que sejamos amigos de verdade. É até gostoso conversar com gestos, caretas e mímicas.

Guilherme é muito diferente do jeito que sou, sou muito diferente do jeito que é Guilherme, mas isso não impede que sejamos amigos de verdade.

Até acho que nossas diferenças ainda tornam nossa aproximação maior e em cada encontro sempre uma nova descoberta. Descoberta para mim, descoberta para Guilherme.

Dias atrás resolvi dar um presente ao meu amigo. Escolhi entre as minhas coisas o boné que eu mais gostava. Um boné de capitão, desses que se usa para conduzir navios em alto-mar. Ofereci o boné a Guilherme e… Uma decepção. Agradeceu com um sorriso frio e creio que jamais será capaz de usar.

No começo fiquei meio chateado com minha decepção, depois pensei: “Caramba… ele é diferente e é natural que goste de coisas que não gosto e até aprecie coisas que adoro. Da mesma forma como é comum eu detestar algumas coisas que Guilherme até arregala os olhos”. Isso não impede que sejamos amigos e que gostemos muito um do outro.

Dias atrás Guilherme pediu-me uma camiseta. Essas que os políticos usam em tempos de eleição. Uma verdadeira porcaria para mim. Pois não é que Guilherme adorou a camiseta, abriu um enorme sorriso e vestiu-a e anda com ela de lá para cá. Achei estranho, mas aceitei. Amigos podem não gostarem de coisas iguais, mas nada impede que sejam amigos de verdade.

Eu adoro Guilherme, meu amigo eslovaco…

Mas. Espera aí…

Estou aqui falando essas coisas e agora me veio uma dúvida. Será que Guilherme é mesmo eslovaco? Será que não estou trocando as bolas e trocando seu país? Talvez a língua atrapalhada de Guilherme nem seja eslava e quem sabe ele é búlgaro, romeno ou estoniano?

Mas, acho que isso não é importante.

O que vale é que somos diferentes, somos amigos e que a nacionalidade de Guilherme não o torna menos amigo.

Talvez, nem seja búlgaro, romeno ou eslovaco e como qualquer estrangeiro seja diferente de mim. Quem sabe Guilherme tem Síndrome de Down, Asperger ou problemas no processamento da linguagem ou diastrofismo muscular. Isso, na verdade, não é importante.

Finlandês ou eslovaco, Asperger ou Down o que importa não é o rótulo. É a amizade.

Eu adoro esse meu amigo diferente e sei que ele me adora, um cara diferente como todos os caras deste mundo.