LIBERDADE SEM MEDO, MAS COM ORDEM.

Anos 1960. Comecei a lecionar aos 21 anos. Era a idade mínima permitida naqueles tempos. As aulas eram de Geografia, para o Curso Colegial, hoje Ensino Médio. Descobri que lecionar era tarefa muito fácil. Ao professor cabia ser autoritário e prepotente e a severidade era sinônimo de competência e aos alunos a responsabilidade de serem dóceis, silenciosos, obedientes. Não se imaginava outra estratégia de aula plausível que não o discurso, a exposição, quanto mais erudita melhor. Além das aulas de Didática que na Faculdade de Filosofia assistia, minha única referência para a prática docente era o livro de Alexandre Neil, recentemente traduzido para o português. A “Liberdade sem Medo” que esse autor preconizava era o resultado concreto do que fazia em sua escola modelo, Summerhill. Nada do que pregava e insistia em proclamar condizia com a realidade brasileira que meus vetustos colegas conheciam e aplicavam. Aconselharam-me a jogar fora o livro e esquecer suas ideias. Resolvi não obedecer.

Já na primeira aula em meu primeiro dia proclamei que sem liberdade não existia aprendizagem autêntica, mas que essa palavra não representava ausência de regras. Propus à classe uma discussão sobre essas regras. Espantados e surpresos, como de praxe, se submeteram. Combinamos então que prevaleceria entre nos algo como um “contrato” em que eram estabelecidos o possível e o condenado, as regras e, tal como nos esportes coletivos, as sansões para eventual descumprimento. Sanções para alunos ou para o professor, se infrator. Acharam graça e prometeram que não falariam desses “abusos” para o diretor ou para outros professores. Sugerimos aulas em grupo e propúnhamos o papel docente como o gerador de dúvidas e a discussão entre os alunos como estratégia para a busca de resultados. Solicitei que cada grupo escolhesse seu representante para em uma reunião com o professor por uma hora e uma vez por semana relatassem tudo quanto poderia ser feito em aula para melhorar sua qualidade e para descobrir meios para uma efetiva avaliação. As ideias de Neill em uma escola da então periferia de São Paulo.

Os alunos adoram a iniciativa e nas reuniões semanais proibi elogios. Expliquei com paciência que sua finalidade essencial era a crítica, a busca de soluções, as sugestões para melhorar a relação entre alunos e professores e, principalmente, para consolidar uma aprendizagem não memorativa, mas consciente e significativa. Impossível manter o “segredo” daquelas loucuras de Neill e, em pouco tempo, a direção, professores, alunos e pais falavam da diferença daquela maneira de se pensar escola. Acreditei que seria demitido e a cada dia que chegava para as minhas aulas esperava a ordem de mudança imediata ou o refrear daquela liberdade indigesta, senão para os alunos e a Geografia, mas para as tradições da época. Alguns professores jovens e até mesmo outros já bem mais experientes começaram a ouvir o que se tinha a dizer sobre as “loucuras” daquela estranha maneira de se pensar educação e daquele esquisito autor inglês. No final do ano letivo, o Diretor interrogou-me se estava disposto a assumir outras turmas para o novo ano. Infelizmente, não foi possível, ficava com as aulas que tinha e não mais.

Colégios particulares tinham ouvido falar das estratégias de Neill em escola pública brasileira e buscavam me contratar. Entre estes, o mais vetusto e famoso, o quase centenário Colégio Sion, o preferido para as alunas da fortuna e nobreza, agora dirigido por uma freira que gostava de novidades, resolveu mudar sua tradicional e conservadora professora de Geografia e experimentar aquele ousado e extravagante Alexandre Neil brasileiro. Lá fiquei por mais de dez anos. Sinceramente não foi esse o único pensador que resolvi plagiar.