ICO E KIKA EXPLICAM PIAGET

Qual a diferença real entre Ico e Kika? Ico é um adorável bebê de dois meses, fofo, bonzinho, uma paixão. Kika é uma cachorrinha da mesma idade, linda e muito alegre. Excluindo as diferenças entre as espécies e as considerações que sobre elas possamos eventualmente fazer, Ico e Kika são extremamente parecidos e cerebralmente quase iguais. Possuem uma vida, por assim dizer, vegetativa e vivem pela satisfação de algumas necessidades básicas.

Mas existem diferenças imensas entre os dois. Kika caminhará pela vida afora não muito diferente do que atualmente é. Jamais aprenderá sobre si mesma e sobre a circunstância de sua vida. Não sabe que é Kika, ainda que seus ouvidos respondam a esse e a análogos sons. Sua vontade será sempre instintiva e ela jamais diferenciará o ontem do amanhã. Ico, ao contrário, pouco a pouco vai se afastando desse viver vegetal. As constelações de neurônios de seu cérebro vão formando indescritível árvore com admiráveis ramagens e sua mente vai passando por fantásticas mudanças, colossais transformações, sobretudo se não lhe faltarem os alimentos essenciais para sua saúde corporal e afeto emocional. Necessitará (e como!) de boa alimentação e de um oceano inteiro de carinho sem mimos, de ternura que abriga o “não” e de afeto que explique a dimensão dos limites do “pode” e do “não pode”.

O tempo, que parecerá sempre o mesmo para Kika, mudará pouco a pouco e sempre para Ico. A organização dessa “árvore” maravilhosa da mente esculpe diferentes potenciais e, assim, as inteligências de Ico vão crescendo e se organizando. Um sinal luminoso que mostra essas mudanças é percebido pelas ações de Ico, ao responder aos pais e avós, tios e tietes com sorrisos, imitações, movimentos e manha, sobretudo muita manha.

Por volta dos sete anos, Kika já é uma cachorrinha “balzaquiana”, provavelmente já se tornou mãe algumas vezes, mas continua, e continuará para sempre, sem o ontem ou o amanhã. Nessa mesma faixa etária, as ações de Ico começam a ganhar contorno de operações, isto é, são ações mais complexas, mais elaboradas, mas muito mais matreiras.

O engraçado é que Ico, nessa idade, se mostra incrivelmente concreto, literalmente preso ao real. Nunca constrói uma hipótese e é um pequenino “São Tomé”: só crê no que vê. Esse período da vida de Ico, entretanto, é transitório. Nessa fase, ele necessita brincar, sorrir, cantar e abrir todas as linguagens de seu mundo de encantamento, todas as inteligências desse cérebro em construção. A educação infantil (quem duvida?) é tudo. O resto é quase nada.

Pouco a pouco Ico vai descobrindo raciocínios mais organizados, e o mundo real e concreto vai aos poucos incorporando o mundo possível. Mas essa transição somente se completará por volta dos onze anos, quando Ico será proprietário de um mundo de sonhos, cavalgará o alazão do imaginário, vivenciará devaneios e hipóteses. Nessa fase, construirá teorias, ficará “metido”, criticará pessoas e eventos, proporá mudanças na realidade e descobrirá o fantástico. Nessa hora, precisará de pais e de professores que o façam ver a realidade das coisas e da vida, da matemática e da geografia, do saber inventado e do saber estruturado através das múltiplas operações do pensamento que, necessariamente, incluirão sintetizar, classificar, comparar, conceituar, deduzir, julgar, provar, imaginar, transferir e outras, muitas outras operações abstratas essenciais ao sereno crescimento. Desnecessário lembrar que, já velhinha, Kika será a Kika que sempre foi.

Pensarão alguns que pensamos e falamos sobre Ico e Kika. Falamos, sim, mas fazemos nossas as palavras de um velhinho simpático chamado Piaget, que explica em sua Teoria Desenvolvimentista os três formidáveis momentos do crescimento humano: o sensório-motor, o das operações concretas, por volta dos seis anos, e o momento definitivo das operações abstratas, lá pelos dez, doze anos. Kika desejará rotineiramente os mesmos afetos e a mesma comida e Ico sonhará não com professores que, de maneira benevolente, lhe transmitam os conhecimentos que possuem, mas com mestres que possam intermediar suas ações sobre os objetos do mundo, suas categorias de pensamento e sua permanente reconstrução do que aprende e reaprende.