A HORA MÁGICA DO ENSINO DAS REGRAS

Existe algo mais fascinante que observar uma criança de seis a dez anos?

Nessa idade, em que não se é mais criança, mas ainda se encontra distante de ser efetivamente adulto, o ser humano ganha aspectos de uma singularidade impar e, se humano não fosse, por certo receberia o aplauso de zoólogos e o estudo curioso de antropólogos. Fase da vida em que não é incomum crescer mais de oito centímetros e engordar até três quilos em um só ano, meninos e meninas constituem espetáculos de originalidade indescritível. Falam em profusão atropelando palavras ou mergulham-se em silêncios cismadores e profundos, e em seu caminhar – se não imaginam observados – equilibram-se em beirais, correm e param, apanham tudo que lhes emoldura as passagens, alternam breves corridas com pulos injustificáveis, engolem coisas extravagantes e, surpreendentemente, conseguem até chegar inteiras em casa. Em algumas circunstâncias grudam-se ao celular ou ao computador, em outras se largam inertes e estáticas diante da televisão.

As crianças nessa fase, ou mais especificamente dos sete aos dez anos de idade, apresentam-se no estágio de desenvolvimento cognitivo e habilidades mentais que Piaget denominava “operações concretas”, podendo fazer inúmeras coisas que em criança não podiam, e por isso tornam-se tão estranhas e tão fascinantes. Em geral, são agora capazes de operar símbolos da mesma forma como na fase anterior manipulavam objetos. As palavras, os números e as pessoas então, ganham significado especial e se incorporam as suas vidas como jamais antes podia acontecer. Para a vida humana ocorre uma imensa diferença entre a manipulação de coisas e a manipulação de símbolos.

Os números, por exemplo, entre as crianças pequenas alcançam apenas o limite do que percebem e sentem que um não é a mesma coisa que três, mas jamais podem imaginar que cem é mais que quarenta; já a partir da fase operacional concreta conquista-se o senso real dos números. O cérebro que antes divagava entre a certeza concreta do um e do mais que um, ganha direito ao mistério dos milhares e desenvolve convenções fantásticas. Tal como os números, as palavras deixam de se referir a coisas palpáveis e assumem horizontes antes impensáveis. Essa operação cerebral permite todo um novo nível de realizações e a fantasia do amigo secreto, ganha contorno de multidões secretas abrindo caminhos para novas aquisições intelectuais e interpessoais. Nesse estágio descobrem a capacidade de operar seguindo regras que representará para todo o sempre a base de todo intercâmbio social duradouro. É a fase em que a ajuda dos pais é bem mais que essencial, é imprescindível.

É chegada a hora maravilhosa de conclama-las a organizar e combinar “contratos”, descobrindo que a maneira ideal e certa de se comportar é toda aquela que obedece às convenções que democraticamente se construiu, que com os pais, com paciência, se aprendeu. O bom adulto, nessa hora, não é apenas o que estabelece limites, mas o que ajuda a criança a construí-ló, não é aquele que a toda hora sabe apenas dizer “não”, mas quem encaminha a criança para dizer-se “não”. Perder essa oportunidade constitui imperdoável lapso contra a educação e no desenvolvimento da mesma assume a família e a escola a plenitude ilimitada de todo seu valor.

Quando uma criança aprende a construir e dominar as regras, conquista o pensamento silogístico e está pronta para a educação formal, descobrindo que existem regras fonéticas, regras de escrita, regras de aritmética. Aprender regras possibilita poder participar de jogos complexos, criar seus próprios jogos, ordenar as linhas de seu destino. Enfim, saber viver em grupo e assim se tornar realmente uma pessoa. É a oportunidade que os pais jamais podem deixar passar de mostrar, com doçura, mas firmeza, que existe hora para ligar e para desligar a TV, para brincar com jogos eletrônicos ou bonecas, mas também existe hora para parar.

Impossível afirmar que essa é a mais linda fase do pensamento humano, posto que essa beleza é inesgotável em todas as ocasiões, mas seguramente é uma fase admirável que requer professores capacitados e pais pacientes que explorem essa incrível competência mental para construir um ser efetivamente social.

Nessa fase, muitos alunos em uma sala e a impessoalidade de uma aula constitui um crime contra a educação, como crime menor constitui a pressão para aprender depressa, a monotonia de aulas expositivas, a homogeneidade de provas iguais para todos e a presença de adultos que “proprietários de saberes” os transmitem sem direito a exploração da curiosidade. Toda criança necessita do adulto e é nessa fase que desse adulto mais se necessita. É imperioso que compreendamos a criança e possamos assim nos tornar dignos dessa essencial necessidade, da dimensão infinita dessa bela oportunidade que nem sempre percebemos, mas somos intensamente procurados.