ESCOLA OU DELEGACIA?

Há cerca de trinta ou mais anos atrás uma escola mostrava extrema identidade com uma Delegacia de Polícia. Os professores possuíam poderes autoritários extraordinários e os alunos ou se enquadravam em suas normas ou eram punidos. Assim como os professores, Inspetores de alunos se confundiam com carcereiros e alguns Diretores impunham rigor disciplinar de tal forma violentos que caminhavam tranquilamente de alguns tapas à exclusão sumária. Ser aluno “bem comportado” não se impunha como condição de caráter, mas como imperativo de sobrevivência na escola.

Com a chegada da “Escola Nova” esse rigor começou a ser abalado e os professores transformaram-se de “senhor” em “você”, ao mesmo tempo em que se abrandava o rigor excessivo. Proclamava-se que o bom ensino dispensava imposição e que um verdadeiro professor era o que conquistava a classe por seus argumentos e não seus berros e ensinava em nome da significação e não da decoreba. Claro que a mudança foi progressiva e era quase impossível que quem dispunha de chicote pudesse do dia para noite transformar a bronca em argumentação, mas uma nova invadia as escolas e trazia de sua formação preceitos de serenidade e bom-senso repudiando a ideia de similaridade entre escola e delegacia de polícia.

Mas, impossível crer que essa escola livre, ainda que austera, serena, embora segura perdurasse para sempre.

A sociedade mudava depressa, a fragilidade da educação familiar crescia e os alunos começaram a chegar sem princípios e sem normas, ao mesmo tempo em que muitos de seus pais buscavam transformar seus filhos em “clientes” de ilimitados direitos e seus professores em empregados subservientes. Excluir alunos por mau comportamento saiu da moda ao mesmo tempo em que a severidade do professor passava a ser sinônimo de despreparo e inabilitação para ensinar. Não demorou muito e a liberdade transformada em libertinagem trouxe o Bullying.

Chega-se assim ao retorno e a escola volta a se identificar com a Delegacia de Polícia, não mais assumindo esse papel, mas separando fundamentos de indisciplina que administra e casos inaceitáveis de violência que encaminha.

O antigo “Te pego lá fora” transformou-se em sevícias e humilhações ampliado pela facilidade com que na Internet se combina atos de estupidez e se divulga e ridiculariza suas vítimas. Hoje pais e professores já aprenderam a sair em defesa das vítimas por meio de ações judiciais. Algumas vezes é o único caminho plausível.

Se na escola existem agressores que ignoram o outro e não se importam com sanções escolares que a eles se coloque a força da lei e já existem precedentes de famílias condenadas a indenizações em decorrência de atos de Bullying cometidos contra outros. A justiça, quando solidificada em provas, é capaz de fazer do agressor escolar o que faz com qualquer agressor que esteja ou não matriculado.

Aprovamos esse caminho e aplaudimos escolas que com transparência assumem essas sanções e orientam os pais. Não se trata de fazer da escola de hoje uma delegacia como a escola prepotente de ontem e sim de se colocar em lugar de onde jamais deveria ter saído delinquente que se fazem passar por alunos.