DO PRIMEIRO RABISCO À SINTAXE

Por muito tempo, a escola alardeou-se de ser a construtura do futuro. Afirmando-se despreocupada com o agora, que anteriormente necessitaria ser visto, armava todos os seus arsenais para preparar o amanhã.

“Não é com o hoje que me preocupo!”, afirmavam os professores. “Trate de estudar para ser uma pessoa digna amanhã”, garantiam os pais.

Era natural que a escola fosse assim: o futuro mais que previsível era o mundo mágico da esperança, o lugar admirável que se pretendia para os jovens e que os velhos não ousavam desafiar.

Essa realidade, entretanto, mudou. O futuro perdeu seu encanto e, aos poucos, passou a ser ilha de incerteza, porto de angústias. Além disso, as mudanças passaram a se acelerar, e dúvidas sobre como seria esse amanhã acumularam-se depressa. Agora, diz-se que mais de 70% das profissões que estarão sendo exercidas nos próximos 30 anos ainda não foram criadas e que, por esses novos tempos, passarão a existir novas instituições, outros paradigmas e, por certo, serão novas as qualidades que o novo emprego buscará.

E como fica, então, a escola?

Se não imaginamos como poderá ser a vida daqui a seis anos, como acolher uma criança e prepará-la para a vida adulta? Onde colocar os discursos usados de que o papel essencial da educação é forjar o amanhã? Onde fica o professor em sua missão de preparar pessoas? A resposta não é fácil. Preparar para o futuro é impossível; para o passado, tolice. Preparar, então, para quando?

Mais que a busca simplista da resposta, cabe aprofundar a pergunta. O que a escola de agora está realmente preparando? O que “cozinham” os professores em seus recados, por onde transitam os poetas em seus sonhos? Parece ser impossível a dúvida: é mais que urgente redesenhar o papel da escola e fazê-la imediatamente a preparadora do presente.

Assumir com ousadia e coragem que os currículos visionários de ontem já para nada mais servem e, repensando a ciência, a filosofia, a técnica, as letras e a arte, construir uma escola para o agora, com novos propósitos e ideais. Mais que nunca, é essencial ensinar viver em grupo, despertar as relações interpessoais e fazer crescer sentimentos de otimismo, iniciativa, confiança e coragem. Cabe a dúvida de que o preparar para “agora” dispensa o ensino do amor, da urgente necessidade de bondade e de exemplos concretos de ética? Da essencial aprendizagem da compreensão da arte, da descoberta plena da beleza e do valor reflexivo do silêncio? Alguém, por acaso, discorda de que esse novo papel para a escola verticaliza-se da Educação Infantil ao Ensino Médio, dos primeiros tímidos rabiscos da criança à construção ousada da sintaxe pelo jovem?

Se existe coerência em se aceitar que é preciso redesenhar o papel da escola para se ensinar para o presente e se com mais coerência ainda descobre-se que não há mais sentido em se preparar para a incerteza, cabe a dúvida vigorosa: o que fazer? Quando começar?

O que não fazer é simples. Basta não ficar de braços cruzados aguardando decisões governamentais, leis, decretos, portarias e medidas que viabilizem o ensino para o presente. Melhor que a intolerância da espera, pois é a certeza da ação, em que os professores reunidos discutem, opinam, sugerem, propõem e constroem. Se uma primeira iniciativa não for perfeita, será, por certo, melhor que a espera, pois a correção da rota somente é plausível para quem aceitou caminhar. Jamais pude assistir a algum desafio escolar em que, professores unidos, pensando juntos, não encontrassem caminhos.

Alcançando-se as diretrizes decisórias do “o que fazer”, morre a angústia do “quando executar”. Ao sentar-se para pensar juntos, já estão construindo e, de imediato, transformando palavras em gestos e intenções em mudanças.