DESCALABRO

Descalabro. Era essa uma palavra que sempre ouvia de meu pai, mas ainda que imaginasse o seu significado pela seriedade com que o velho a enunciava, confesso que não sabia seu real significado.

Descalabro. Ainda hoje penso nessa estranha palavra, perguntando-me se alguém destes tempos líquidos e atuais a emprega e com qual finalidade a pronuncia. Imagino ainda que se apresentada a um aluno que eventualmente esteja matriculado no Ensino Médio não será capaz de garantir seu significado, ainda que alguns mais espertos possam garantir que é substantivo masculino. Mas, sinceramente, importa menos o significado exato de uma palavra desta tão estranha e exótica língua portuguesa que perceber que a mesma se ajusta a uma porção de coisas que se percebe no cotidiano de nossas escolas, públicas ou particulares, seja qual for o nível de ensino ministrado.

Por exemplo: Um descalabro colossal é pensar que em pleno século XXI, em meio a um mundo que se globalizou e se busca desesperadamente se conectar, ainda existem professores que ministrem a falida e horrorosa aula discursiva ou expositiva, aquela em que o aluno, sem qualquer ação protagonísticas, necessita ficar horas e horas ouvindo o que pode, em segundos, achar no Google. Pior ainda, sendo obrigados a guardar coisas em sua memória, como se não houve função mais digna e honrosa para suas sinapses e seus neurônios. Mas, se essa estratégia de aula, já há muito banida em escolas de países onde a educação é coisa séria, é verdadeiramente um descalabro, que dizer então da maneira como grande parte do professorado brasileiro pensa sobre os “conteúdos conceituais” que transmite. Pode existir descalabro mais medonho que reduzir mentes espertas em receptáculo de informações desconexas e vazia? Pode alguém de bom senso imaginar que a morada da matemática, da geografia, ciências e da língua portuguesa deixe à vida para ao ingressar na escola se transformar em informação gosmenta e sem sabor?

Os conteúdos das matérias escolares deveriam servir para os alunos perceber a vida, o trabalho, a rua, as notícias, as relações humanas, enfim, aprender para materializar o saber em fazer, para perceber o entorno e, no entorno o mundo. Mas, que não se pense que a esquisita palavra descalabro sirva somente para a aula e o conteúdo, porque ela se insurge de forma ainda mais tenebrosa no que em muitas escolas do país se pensa no significado de avaliação.

É incrível, mas verdade que ainda existam professores – melhor denomina-los “professáuros” – que acham que avaliar é somente o ato de aplicar provas e as corrigir e não de perceber como anda o progresso e a evolução do seu aluno, como ajuda-lo a crescer no seu autoconhecimento, em sua capacidade de estabelecer relações, em seu senso sobre os valores e sua relação com a vida. É claro que existem exceções, mas infelizmente, são poucas e basta interrogar um aluno qualquer e querer saber o significado de aula, avaliação e conteúdo e ele confirmará que são chatices sem sabor e sem alegria, são tolices que se aprende agora para esquecer amanhã.

Assim, mesmo sem se buscar o real significado da tal palavra “descalabro” salta aos olhos que ela se faz presente na escola e na sala de aula e da mesma somente se ausenta nas abençoadas e, portanto, benditas horas de intervalo, quando efetivamente o aluno aprende alguma coisa para a qual percebe sentido. E assim se chega ao fim desta paupérrima crônica onde se busca mostrar que sabendo ou não o significado de “descalabro”, não é difícil saber qual tipo de estabelecimento o mesmo se faz mais marcante e cotidiano.

Mas, afinal, qual o sentido de descalabro? Melhor terminar por aqui. Se desejar saber que tal uma olhada no dicionário ou, ainda mais fácil, no Google?