Crônica do Mês

   ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

“Admirável Mundo Novo” é nome de um romance, que li pela primeira vez, aos vinte anos e que, de tempos em tempos, gosto de mais vezes o saborear. Escrito pelo genial Aldous Huxley e publicado pela primeira vez (1932) cinco anos antes de meu nascimento, relata um hipotético futuro onde as pessoas são biológica e psicologicamente pré-condicionadas a viverem em harmonia com a leis e com as regras sociais, dentro de uma sociedade organizada por castas.

Romance escrito por um poeta sonhador, teimava em desejar olhar para o amanhã com esperança de paz, ainda que para pessoas como que robotizadas pela alienação. Inspirado pela esperança do autor, mas desapontado com a maneira cruel como via a conquista dessa paz, fiz-me professor e, após bem mais de cinquenta anos dedicados ao ensino, atrevo-me a discordar de Huxley, ainda que pensando que o mundo novo que aguardo chegar possa ser realmente admirável, ainda que por caminhos diferentes.

Assim, quando retomo ao hábito rotineiro dessa leitura, creio que é perfeitamente factível esperar por um mundo novo e admirável, mas consolidado não pela educação que temos, mas por outra que sonhamos e esperamos. Chega-se, então, o questionamento. O que existe de errado na educação que temos? Como faze-la se aproximar da que merecemos e, por enquanto, apenas esperamos?

Não ouso pensar em receitas mágicas, mas trazer para meu país o que, há tempos, já se pratica em alguns países com excelente e admirável educação. No Brasil, com raras e esquálidas exceções, se pensa educação entulhando a mente dos alunos com informações, organizadas através de um pesado e indigesto currículo. Informações matemáticas, linguísticas, geográficas e outras tantas que transforma o bom estudante em “intelectuoide”, mas não o faz mais homem, não o ajuda a efetivamente “aprender a ser”.

Ao se comparar a estrutura curricular brasileira básica descobre-se uma enorme listagem de disciplinas, sempre voltadas para que o aluno possa melhor conhecer, mas não melhor viver. Nos países ao qual de passagem nos referimos inexiste a matemática que não desperte a consciência sobre regras, a história que nos mostra que a passagem humana pela terra não pode separar os saberes dos valores, a geografia que mostra que a diferenças entre países ricos e pobres situa-se menos nas suas economias e mais, muito mais, na sua formação ética, na sua consciência cidadã. Difícil essa mudança? Fácil, seguramente não é, mas indiscutivelmente plausível. Seu preço? Olhar para as crianças de agora e sonhar com Huxley. Não nas castas que propôs, mas no insubstituível título de sua obra. Uma nova e ousada educação nos permitirá sabermos o que nos espera. Finalmente, um mundo novo. Um admirável mundo novo.