Crônica do Mês

  O MITO DA GENIALIDADE

Não existe classe, seja qual for o nível de ensino, em que não existam bons alunos, reconhecido pelos colegas como dotados de capacidade superior e valorizados e aplaudidos de forma unânime pelos professores. Não raramente, esses alunos são vistos como “gênios” e a crença popular é de que foram premiados pela acidentalidade genética e assim aprenderão com facilidade o que será sempre mais difícil para seus colegas.

Ainda que essa visão seja extremamente comum, apoia-se cientificamente em um erro.

Pessoas verdadeiramente geniais são raríssimas, e o que ocorre na maior parte das vezes com esses alunos é que são mais esforçadas que os outros, dedicam-se com mais firmeza e apego a seus estudos. Muitas vezes, são alunos comuns que ao se destacarem acidentalmente e se sentirem elogiados, se empolgam com esse prestígio e se esforçam muito para preserva-lo. Recentes estudos sobre o cérebro humano e sua plasticidade, ensinam duas verdades interessantes sobre a pretensa genialidade humana: a primeira é de que inteligências muito acima da média constituem casos verdadeiramente excepcionais e que se estar diante de um deles é estatisticamente quase tão invulgar quando encontrar mulheres densamente barbudas, e a segunda é que a genética raramente tem algo a ver com a inteligência, mas não é raro que posturas e sentimentos de persistência e esforço serem transmitidas de pais para filhos. O excelente motorista de táxi que, por exemplo, faz manobras que nos deixa de água na boca, são melhores do que nós em manobrar veículos não porque “herdaram dons”, mas porque manobram muito mais, trabalham no volante pelo menos dez vezes mais que quem não é motorista e assim alcançam resultados superiores.

As ideias que escoram essas afirmações são reafirmadas por muitos, mas particularmente estudadas por Anders Ericsson, psicólogo da Universidade do Estado da Flórida, em Tallahassee que passou os últimos vinte anos pesquisando tudo sobre gênios, prodígios e outras inteligências superiores em campos diversos, que vão do esporte às artes plásticas, da medicina à entretenimentos. Segundo esse cientista não existem características herdadas especiais que diferem pessoas de capacidade superior. A base verdadeira é sempre a “vontade de ir além dos limites e se superar” e seus inúmeros estudos levou-o a elaborar o que chama “a regra dos dez anos”: Para a maior parte das pessoas os melhores desempenhos e as grandes façanhas requerem pelo menos dez anos de treinamento e esforço intenso e, segundo ele, “qualquer pessoa, qualquer aluno que invista o tempo necessário pode alcançar a níveis de desempenho prodigiosos”. Os exemplos que apresenta vão muito além de praticamente todos os “gênios” imaginados.

Mas, chegando-se a este ponto, pergunta-se: O que fazer com essa pesquisa? Quais são seus resultados práticos?

Parece que a primeira ação de todo professor e de todo pai com aluno ou filho de qualquer idade, é realizar uma boa e séria conversa sobre esse assunto, procurando desmontar o mito da genialidade. Claro que isso não é fácil e ainda mais claro que uma única e isolada conversa pouco convence. Mas, se pais e professores falam a mesma língua e, principalmente, todo o corpo docente se convence de uma certeza é preciso reitera-la sempre, buscando entre os alunos as provas irrefutáveis de que ser “o bom” não é sorte, é esforço, alcançar resultado, não é loteria é dedicação. Essas pesquisas não servem apenas para pais, mas para todos que buscam selecionar bons profissionais, identificar ótimos professores: Existem professores bons, mas excelentes são os bons que jamais desanimam, que se aperfeiçoam cada vez mais, que crescem sempre.

Muito antes de bem se conhecer o cérebro humano e de se consolidar as excelentes pesquisas de Ericsson, Thomas Edison unanimemente considerado gênio, já negava sua genialidade ensinando que mesma era 1% de inspiração e 99% de transpiração. Uma boa ideia pode brotar em qualquer cérebro, gênio de verdade em que luta com persistência, seriedade e paciência para concretiza-la.