BERNARDO E ANGÉLICA, ANNINHA E RUBENS

Bernardo e Angélica conheceram-se na faculdade e se casaram quase na mesma época que os amigos Anninha e Rubens. Mantiveram a amizade e como se uniram quase ao mesmo tempo, tiveram o primeiro filho e depois a caçula com diferença de poucos meses. Amam-se com sincera intensidade, mas se amam de maneira diferente.

Bernardo e Angélica são extremamente competitivos e a relação entre eles é de contínua avaliação. Medem-se a cada passo, em cada ato e sempre que um se sai de maneira melhor que o outro, vibra com a alegria dos vencedores e impõe ao parceiro a amargura da derrota. Comparam-se muito e compararam-se sempre e, em tom de brincadeira, sempre levam os resultados desses exames à conversa com os amigos. Bernardo vangloria-se de ser melhor na cozinha que Angélica, mas esta não concorda, relembrando sempre os pratos que quebra e a bagunça com que termina seus assados; Angélica por sua vez exalta-se por suas qualidades no computador e ironiza os gritos de desespero do marido nas frequentes “pisadas na bola” que não cansa de repetir. De medição em medição, de comparação em comparação sempre se classificam e sempre se excluem, um clamando pelo destaque que o outro sempre alega lhe pertencer.

O amor entre Anninha e Rubens é diferente e se fortalece na recíproca ajuda. Cada um gosta de falar de seus defeitos, com o qual o outro jamais concorda tratando sempre de tornar pequena a falha que é descrita como enorme. Sem nem mesmo perceber, não se medem, se interpretam, não se opõem, se ajudam. Compartilham sonhos e planos e em todos eles nenhum dos dois se imagina sem o outro. Nunca se excluem, sempre se incluem.

Impossível afirmar quem se ama certo, quem se ama errado. A história e a psicologia reiteram sempre que existem inúmeras e indevassáveis linguagens para o amor e, dessa maneira, vale tudo na relação entre Bernardo e Angélica, tudo vale na vida de Anninha e de Rubens. Não cabe a pretensão dessa crônica, destacar uma maneira única e correta de amar, circunstância que, entretanto não impede que seu autor admire mais Anninha e Rubens e aposte com mais segurança no amanhã destes dois. A vida comum que desenvolvem se mostra solidificada pela inclusão, pela ajuda, pelo compartilhar e pelo descobrir e dessa forma se opõe a relação do outro casal que disputam, competem, se medem e se excluem.

A metáfora que relaciona os dois casais pode até deixar de ocorrer nos desafios do cotidiano, mas se encontra sempre presente na ação avaliativa da escola e do professor na relação entre sua ação e o desempenho de seus alunos.

Para muitos, a avaliação correta é a que mede e, por isso, os valores e os números são essenciais, a comparação entre desempenhos inevitável. É óbvio para os que assim pensam que uma nota seis é sempre a mesma, seja este seis alcançado pelo preguiçoso inteligente que nada buscou ou pelo seu colega para a essa mesmo número chegar, varou noites em sua busca. Essa forma de avaliação compara, exclui, mutila, mas se deprime o derrotado, exalta os vencedores, premia apenas os números melhores. Esta é uma forma habitual, mas não é a única maneira de se avaliar que as escolas conhecem.

Existem professores que pensam a avaliação da mesma maneira que Rubens e Anninha pensam o amor. Sabem que existem jogos que competem, mas conhecem também outros em que se coopera. Acreditam que seu papel maior é interpretar seus alunos e não medi-los, acompanhá-los em seus passos, jamais comparar seus desempenhos. Não fazem avaliações pelo máximo possível, mas pelo plausível, sabendo que não existem ótimos coletivos. O ótimo de sono e de apetite de um, nunca serve para os demais.

Como você, professor amigo, avalia seus alunos? Sua relação entre suas aulas e seus conteúdos, suas linguagens e seus exemplos se pautam pela competição que marcam a relação de Bernardo e Angélica ou pelo sentimento de cooperação que solidifica o afeto que se descobre nas mãos sempre juntas de Aninha e de Rubens?

Não se sinta prisioneiro de uma maneira correta de amar e assim não desaponte psicólogos e historiadores, mas busque uma avaliação consciente e lúcida e assim receba o reconhecimento sincero de quem acredita em uma educação autêntica.