A FOLHA E O TRONCO

Existem pessoas, e muitas, que vivem como folhas. Sua passagem pelo mundo, ainda que às vezes prolongada, são efêmeras, vazias, quase opacas. Amam e sofrem, abrigam alegrias e guardam decepções, mas estas sempre serenas não são marcantes e nunca decisivas. Passam pela vida, mas, como relata o poeta, não vivem verdadeiramente e as emoções que a esculpem. São modeladas pela discrição, pela timidez e, dessa maneira, amam levemente e sussurram como o violonista que toca em surdina. São como folhas e quando abatidas pela idade ou pelo vento, caem sem rumor e sem barulho, são arrastadas de lá para cá, sem deixar saudade e sem armazenar paixões. Parecem com folhas de um carvalho impoluto que ao cair não se associam aos frutos e guardam expressiva distância das raízes.

Outras pessoas, poucas é verdade, são como troncos. Marcam seu espaço e simbolizam seu tempo e fincados ao solo pela solidez de suas raízes não se abatem pelas tempestades e ainda que se curvem pela força do vento, jamais se dobram. Um dia, abatidas pelos anos ou corroída pelos raios tombam, mas o fazem com o estardalhaço não de quem reclama a partida, mas com a fúria silenciosa de quem marcou um lugar, deixou seu registro no tempo, será lembrado pela força que demonstrou e pelos inimigos que, revoltados, sentiam-se agredidos por sua ousadia, invejosos de sua grandeza. Parecem com troncos de carvalho solene ou oliveira teimosa que ofereceram frutos, garantiram sombras, impuseram obstáculos.

Os troncos em sua maioria são os que vivem no interior e crescem em sua comunidade e em meio a sua gente. Nem sempre se querem troncos, mas o são pela estreiteza dos limites, pelo reconhecimento de todos. Quando partem, ainda que busquem o anonimato do silêncio, deixam histórias pelos instantes que compartilharam, ainda que breves, embora tímidos. As folhas são os que habitam as cidades grandes que em sua quase totalidade se tornam anônimos entre seus vizinhos, esquecidos por seus pares. Esmagados pela opressiva quantidade são iguais a todos e não ousam fugir do esquema anônimo de não ser ninguém, de jamais viver para qualquer outro. Penso que a glória do viver, se viver abriga qualquer glória, é conseguir se fazer tronco nas megalópoles e buscar uma identidade onde ninguém a percebe ou cultiva ou então se fazer folha no campo distante, onde todos se fundem e onde a individualidade de cada um se reconstrói no exercício de se buscar o outro e pelo outro se reconstruir a cada minuto, em todos os dias.