A EDUCAÇÃO DE VALORES

Uma reunião de professores, sem apresentação prévia  de uma pauta. Compareceram por saberem da importância atribuída pela Direção a essas reuniões, mas não traziam ideias específicas a debater. Além disso, o novo Diretor era praticamente desconhecido pela equipe docente e a reunião seria uma oportunidade para descobri-lo plenamente.

Foram surpreendidos pela abertura da reunião, em que o diretor simplesmente expôs:

–          Gostaria que fizessem uma reflexão sobre valores que consideram fundamentais a humanidade e, nessa folha de papel que está à sua frente, buscassem relacioná-los em uma hierarquia, onde os primeiros seriam os mais importantes. Busquem na sua história de vida e no contexto de suas relações interpessoais o que consideram essencial para seu dia a dia, para o de seus alunos e da humanidade em geral. Algumas idéias:  Amizade e atitude de plena aceitação do outro; independente de suas particularidades específicas?;  Solidariedade aos conhecidos e também aos que não se conhecem mas que atravessam dificuldades de qualquer natureza?   Democracia em oposição frontal a ações e regimes totalitários?  Prestatividade ou ação de prontidão para a ajuda sempre que necessária? Aceitação integral do pluralismo e da  diversidade? Empatia ou capacidade plena de se colocar no lugar de outro? Diálogo como estratégia de solução de conflitos?  Fomento e  cultivo da identidade de cada pessoa; povo e cultura; Respeito integral e defesa do meio ambiente;  Compromisso com o bem comum acima de uma visão egocêntrica?  Desenvolvimento e aprimoramento progressivo de atitudes de cooperação entre comunidades; povos e culturas que nos ensinem a valorizar o local e o peculiar? A fé religiosa como instrumento de aproximação entre anseios pessoais e necessidades solidárias ? Outros valores não enfatizados ? Pois bem; vocês dispõe de quinze minutos para essa tarefa.

Passado esse tempo; os professores foram organizados de forma relativamente aleatória em duplas ou trios e buscaram um consenso em suas listas para chegarem a uma listagem comum, desejável ainda que não imprescindível. Após essa etapa, chegou-se a elaboração de uma listagem que integrasse relativo consenso docente e de posse da mesma, apresentaram-na ao Diretor.

Agradecendo o empenho de todos; informou que a finalidade essencial da educação, bem mais que a de transmitir conteúdos, é a de formar valores e que existindo consenso sobre eles entre os professores, gostaria de reunir-se particularmente com cada um para aprender de que forma poderiam, nas aulas que iriam ministrar, fazerem de sua listagem de valores uma ação pedagógica permanente e pertinente. Sabia que em muitos não existia a consciência dessa relação entre o fazer e o agir, entre o aprender e viver, mas confiava que com empenho e trabalho, chegariam a estabelecer relações entre o que ensinavam e tudo quanto seria desejável a humanidade vivenciar. Orientou que se desviassem de relações forçadas ou forjadas, artificialmente construídas, mas que refletissem se na transmissão de uma equação, gráfico, texto, conceito ou mensagem não seria válido paralelos que levassem os alunos a refletirem sobre valores a praticar. Terminou sugerindo leituras e discussões, muitas discussões. Os professores, desnecessário acrescentar, saíram da reunião surpresos e alguns deles sem nem mesmo saber por onde começar. A dúvida e a serena mas firme e coerente cobrança da Direção, levou-os à procura e esta, com o tempo, a soluções surpreendentes. – Não existe um verdadeiro ideal revolucionário no vizinho que reclama pelo silêncio ? A matemática não pode ajudar-nos a compreender que limites quantitativo inspiram limites sociais ? Não existem capítulos de geografia que nos levam a refletir sobre o sentido da segregação e da forma de combatê-la ? Os temas de redações não podem estimular pesquisas e reflexões sobre alguns valores ? A biologia, por acaso, não exibe no mundo animal e vegetal modelos de ecossistemas com os quais podemos aprender ? O estudo da arte não nos consagra a percepção de formas alternativas de beleza, verdade e bondade ? O ensino de língua estrangeira não pode exercitar a construção de um vocabulário de ações comunitárias ?

Após as discussões e eleição de estratégias de trabalho os professores descobriram caminhos de uma nova interdisciplinaridade, onde temas diferentes mostravam-se integrados por ideais comuns. Aprenderam que a disciplina que ministram sintetizam “linguagem específica” de uma mensagem comum, foram sentindo pouco a pouco que nenhuma pedagogia pode proclamar eficiência se não se ampara em uma ética social mais ampla, em valores essenciais que sustentam os caminhos do ensinar.