A DEMISSÃO DA PROFESSORA MARIA LAURA

– Bom dia professora. Chamei-a até a minha sala para uma missão desagradável e difícil. Missão que cumpro com amargura, mas que se prende a minha condição e obrigação de Diretor deste estabelecimento de ensino. Chamei-a para comunicar que este ano letivo está chegando ao fim e que apos o encerramento das avaliações finais, a colega e amiga está dispensada e, portanto, deverá passar pelo Departamento do Pessoal, já avisado…

– Professor! Vamos deixar o cinismo e a hipocrisia de lado. Caso pretende dispensar-me, sei que é esse um direito indiscutível a sua função de Diretor. Mas, permita-me ser franca: Poupe-me de palavras como “colega” e “amiga”. Sei que sou ótima professora, mas jamais bajulei quem quer que seja e se pretende me excluir do quadro reafirmo que é seu direito, mas uma amarga injustiça. Fui, neste ano que termina uma profissional competente, assídua e íntegra e, dessa forma, ignoro seus motivos. Cumpro suas ordens, mas não as aceito. Quais suas razões? Que argumentos apresenta contra a minha pessoa?

– Contra sua pessoa nenhum, reafirmo que considero ótimas professora e nesta Instituição jamais acolhemos bajuladores. O motivo de sua dispensa prende-se a elementos da primeira reunião do Corpo Docente feita neste ano letivo e quando se discutiu os itens e fundamentos do “Manual do Professor” que, pouco depois, se elaborou…

– Primeira reunião do ano letivo? Manual do Professor? Aonde o senhor quer chegar? Lembro-me que participei ativamente dessa reunião e com meus colegas, a coordenação e s sua direção elaboramos o Manual. Qual a relação entre esse fato distante e a sua prepotência de agora em me demitir?

– Realmente, Maria Laura. Voce alcançou o ponto essencial do problema. Conheceu o Manual, ajudou elaborar preceitos da conduta docente, refletiu sobre a nossa “missão” educacional, mas infelizmente, esqueceu ou fingiu ignorar esses conteúdos e, ao longo do ano, deixou de cuidar das normas que nossa equipe elaborou. Sua demissão, assim, se prende ao fato de atuar nesta escola como em qualquer outra escola atuaria…

– Mas, o senhor acha que não deveria ser assim? Sempre acreditei que esse Manual era apenas um texto protocolar, um documento para ser exibido a eventuais interessados e depois ser arquivado. Jamais uma linha de procedimentos que serviria para uma avaliação do desempenho docente. Reconheço que, ao longo do ano, por diversas vezes o senhor abortou esse tema, reiterou a “missão” da escola e os preceitos de conduta do professor, mas jamais poderia acreditar que essa tolice não cumprida pudesse implicar nesta sua decisão. Estou atônita!

– Pois não deveria estar. Desde quanto à humanidade aprendeu a viver coletivamente surgiram regras de procedimento, linhas de conduta, normas de convivência e o nosso Manual nada mais apresenta que a síntese do que nos propomos e como buscarmos alcançar essa meta. Reafirmo que gosto de você como pessoa, respeito sua autonomia, reconheço sua competência, mas essa sua independência em relação às normas e princípios jamais permitiram que se integrasse a uma missão que por ser imensa e difícil é produto de uma coletividade…

– Quer dizer então?

– Quer dizer… Quer dizer que uma verdadeira escola não caminha sem parâmetros, não forma alunos sem metas e sem destinos. Quer dizer que um verdadeiro corpo docente é uma equipe e que, irmanada, busca suas metas. Quer dizer que nada fragmenta mais a formação discente que professores que renunciam a uma linguagem comum e buscam no culto da própria individualidade caminhos que, ainda que bem intencionados, se dispersam por rotas confusas e não poucas vezes conflitantes…

– Senhor Diretor! Em síntese, isso quer dizer que o senhor não volta atrás em sua decisão?

– Não. Não posso e não devo recuar, sobretudo depois que a colega reafirma sua pregação de egoísmo centrado em uma visão individualista. Talvez, professora Maria Laura, um dia a senhora compreenda que só existe o verdadeiro alcance de uma grande meta, quando existir identidade em sua procura. Até logo.