A CLASSE INTEIRA DE ALUNOS INTELIGENTES

Um problema que aflige todo gestor ou profissional de educação que trabalha fora da sala de aula é a reclamação persistente dos professores sobre a heterogeneidade de sua classe. Representa um quase aforismo de todo mestre lembrar que alunos inteligentes se espalham em meio a outros limitados e que essa desigualdade não apenas impede a eficiência de seu trabalho profissional como compromete um desejo de permitir que todos se sintam realizados em aula. Mais ainda, não poucos proclamam que a qualidade do ensino ganharia muito se determinados alunos fossem excluídos e se com essa ação se alcançasse uma uniformidade discente.

Alegações como essas, ainda que comuns, constituem uma verdadeira barbaridade.

Representam atos conscientes de exclusão, desejo seletivo de se classificar pessoas como se escolhe frutas no supermercado e para todo gestor a ameaça humanitária e econômica de que deve limitar a alguns o acesso a sua escola. É evidente que cabe ao gestor jamais aceitar essas alegações, salvo em casos raros e comprovados de alguns efetivamente díspares em relação às atitudes da maioria, mas é também importante que esse gestor não mostre a recusa como posição autoritária, mas com argumentos neurológicos e psicológicos que comprovem que na desigualdade entre os alunos, existe menos a seletividade genial e a inteligência de alguns e mais, bem mais, uma visão imperfeita por parte do professor.

Atualmente com os estudos sobre a mente humana e com a nova visão sobre a capacidade conquistada com a teoria das Inteligências Múltiplas é possível afirmar que quase todos os alunos matriculados em uma série são inteligentes e que a busca da homogeneidade é utópica e se prende a conceitos superados sobre as inteligências e capacidades humanas. Não existe nenhuma ousadia, assim, ao se afirmar que na maior parte das salas de aula desta ou de outras terras, todos os alunos, absolutamente todos, são inteligentes. O que, lamentavelmente, ocorre é que quem assim não os vê ou ignora o verdadeiro sentido da inteligência na espécie, ou desconhece também que nossas inteligências são diferentes e para quem usa tipo único de processo de aferição, raramente as potencialidades mais cobradas são as que com mais frequência se mede.

A inteligência é a capacidade de resolver problemas, de criar produtos, de diversificar ideias, de encontrar linguagens adequadas para expressar tudo quanto se aprendeu. Um aluno é inteligente quando sabe separar o que gosta do que não gosta, quando ousa buscar a felicidade onde nem sempre outros a encontrar e, dessa forma, afirmar que existem alunos “pouco inteligentes” expressa admitir que alguns não sejam capazes dessas tarefas. A criança e o adolescente que joga futebol, que gosta de conversar, que ousa fazer planos e que se diverte com anedotas é incontestavelmente inteligente e torna-se vítima de verdadeiro crime, quando seu professor quer afirmar, através de suas notas, que é pessoa desprovida de capacidade, ineficiente por suas competências.

Somos todos proprietários de muitas inteligências diferentes e as usamos para expressar o que sabemos e, dessa forma, pretender que todos sejam avaliados pela mesma linguagem cobrada é como afirmar que uma tela de Picasso vale menos que uma escultura de Rodin ou que uma melodia de Vivaldi. A genialidade humana, desde nossos tempos primitivos de primatas das savanas e das cavernas até os dias de agora, sempre se mostrou diversificada e toda escola que desrespeita a singularidade desta ou daquela forma de expressão, não é em verdade uma escola, como não é verdadeiro professor, todo aquele que proclama que alguns de seus alunos são burros.

A verdade da neurologia nos ensina de forma consistente que em uma sala de quarenta ou cinquenta alunos todos são inteligentes, mas alguns são melhores na expressão verbal que na linguagem musical, no movimento corporal que na concepção espacial. Salvo casos raros de deficiências mentais severas, não existem alunos que não sejam inteligentes. Não inteligente é o professor que acredita o contrário e o gestor que acredita nesse professor.