A CIÊNCIA DA AUTONOMIA

A autonomia é qualidade invejável em qualquer adulto, mas impressiona muito mais e melhor quando ocorre na infância. Uma criança dotada de autonomia depende dos adultos apenas para o que é essencial à sua idade e, assim, sabe brincar, fazer amigos, resolver problemas, o que a faz feliz. Impressiona pelo empreendedorismo e pela segurança, visto que é sempre capaz de se sair bem em situações intrincadas, de fazer de sua solidão um momento de alegria, maturidade e criatividade. A autonomia infantil, entretanto, não é característica de caráter programada pelos genes e, dessa forma, é progressivamente conquistada quando cercada de pais e professores que fazem da educação para a autonomia um procedimento respaldado pela neurociência.

Para que seja plenamente desenvolvida na infância – quanto mais cedo, melhor –, é essencial ação cooperativa e sistemática de pais, professores e, eventualmente, tios, primos mais velhos ou outros adultos que convivam, ainda que esporadicamente, com a criança. O que existe de essencial na educação para a autonomia plena é o esforço comum dos adultos em desenvolvê-la em todas as oportunidades, respeitando as limitações físicas da idade, jamais esquecendo a certeza de que qualquer criança saudável pode ser responsabilizada por aquilo que necessitar ou desejar fazer.

Dessa forma, evita-se a exagerada e desnecessária atenção assistencial que, ao artificializar responsabilidades, retarda o poder de autonomia infantil. Trocar a própria fralda, por exemplo, é quase impossível para uma criança de dois anos, mas levá-la ao lixo é sua obrigação. É importante que as crianças sejam alertadas sobre os riscos de uma aventura, como o de subir em uma árvore, mas também aprendam que tombos fazem parte das correrias e, se são acudidas e tratadas, jamais serão bloqueadas no empenho por aprender. O adulto está sempre por perto para socorrer e até pode providenciar o algodão e o mercurocromo, mas, com paciência, pode mostrar à criança o bom procedimento para esterilizar e cuidar do ferimento. Eventualmente, as crianças podem ser privadas de cortar o pão, pois ainda não sabem manejar a faca, mas, no mais, são feitas responsáveis pelo manuseio do que querem, na quantidade que realmente é compatível com seu apetite. Quebrar copos e pratos pode representar risco para crianças pequenas, pois, após usados, os mesmos devem ser lavados. No entanto, esse problema se resolve substituindo-se a louça e o vidro pelo plástico, e jamais é atribuída a elas a responsabilidade de organizarem a mesa e guardarem corretamente tudo que se fez necessário para alimentação (e os exemplos podem se multiplicar infinitamente). Assim, cresce na criança a certeza de que “se virar sozinha” não representa omissão de ajuda, mas consciência sobre a importância de se aprender a crescer.

Nenhuma dessas e de inúmeras outras ações que se refletem no cotidiano infantil é novidade na educação em países escandinavos, mas se tornam difíceis de se transferirem para a realidade brasileira, a qual mal educa crianças com adultos, que servem de “pajens” caridosos que as viciam na dependência, da qual jamais se libertam pela vida afora.

Publicado na revista Profissão Mestre em Janeiro 2015