A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR…

Learning-Disable-300x175“A César o que é de César”, diz um provérbio histórico que se tornou popular; “à medicina o que é do médico, ao mestre o que lhe cabe” dizemos nós, pretendendo analisar o papel docente na questão dos problemas de aprendizagem. Na busca dessa análise, como primeira medida importa clarificar a abrangência da palavra “problema” subdividindo-a em outras três mais específicas: deficiências, distúrbios e dificuldades de aprendizagem.

Deficiência de aprendizagem constitui conceito que envolve o cérebro humano em funcionamento imperfeito, caracterizando o retardo mental e por consequência ocasionando pessoas com necessidades especiais. São e serão sempre casos médicos e a ajuda do professor jamais pode a prescindir. É evidente que para tais casos, o professor pode muito fazer e se trabalha essas crianças com carinho e ternura, abre-lhes caminho de felicidade que merecem, mas que jamais mudará inteiramente sua condição limitadora. As causas do retardo são muitas, algumas possuem origem genética (síndrome de Down), outras são congênitas e ocorrem durante a gestação pela assimilação de doenças contraídas pela mãe – rubéola, sífilis –, existem ainda outras denominadas perinatais e surgem na difícil travessia do mundo protegido do ventre aos perigos do ambiente e, finalmente, as causas pós-natais adquiridas após o nascimento através de algumas doenças infectocontagiosas, imaturidade nervosa, traumatismos ou privações nutricionais violentas. Deficiências de aprendizagem, o professor completo as ameniza, mas constitui elenco de situações que além da imprescindível afetividade, pouco pode fazer.

1401384991Distúrbios de aprendizagem manifestam-se em alunos com inteligências em ordem, equilíbrio emocional saudável e que, no entanto apresentam dificuldades específicas entre outras em leitura (dislexia), atenção (TADHI), percepção matemática ou linguagem, neste caso do mutismo a graus diferenciados de compreensão. São disfunções neurológicas e dessa forma uns pequenos grupos de neurônios não evoluíram em ritmo compatível com a maioria, gerando comportamentos incompletos ou ausentes. Ainda uma vez, o elenco desses distúrbios exige participação efetiva e ativa de professores preparados, não para a cura posto que não representa problema de natureza pedagógica, mas para com afetividade e carinho, ajudar a caminhada, levantar a autoestima e criar o inefável valor de que pessoas “diferentes” não são jamais pessoas deficientes.

As dificuldades de aprendizagem ocorrem devido a situações negativas de interação social, quase sempre provocada na infância. Essas situações surgem quando a criança detecta, ainda que subjetivamente, ameaça de ordem afetiva que, pelos caminhos do sistema límbico bloqueará condições favoráveis a aprendizagem integral.

Ted-Unisinos-Gustavo-BorbaConstitui o grupo mais numeroso de falhas no aprender e para estes problemas inverte-se a condição que se propôs para dificuldades e para distúrbios. Nestes casos, antes do médico, que seguramente pode ajudar, cresce a incomensurável ação do professor buscando afastar para longe dificuldades de interação social. É bem verdade que essas dificuldades não emergem apenas na escola e muitas vezes quando a ela chega o aluno já apresenta as síndromes dessa rejeição e o pavor por essas ameaças, fato que, entretanto que não impede que possamos ajudá-las de forma incontestável, colocando a serviço de sua interação nosso olhar de carinho, nosso gesto de ternura, nossa fala de sincera paixão, nosso ouvido de empatia.

Façamos breve pausa e curiosa reflexão sobre o que acima de disse e se perceberá com facilidade que foi dos órgãos dos sentidos que falamos. O educador ajuda quando põe a serviço das dificuldades de aprendizagem quatro dos cinco órgãos essenciais dos sentidos humanos: se não educa pelo paladar é com as palavras que anima, encoraja, aplaude, envolve o aluno e por isso faz crescer sua autoestima, confiança em si e certeza de que um obstáculo a vencer será sempre desafio que com coragem e confiança nunca será impossível superar. Educa pelo ouvido quando aprende a ouvir e empresta ao aluno o encanto de uma atenção empática, sempre pronta para devolver-se a confiança. Nesse contexto, ouvido empático é quase sinônimo de ombro amigo e se este é imprescindível a todos, mais ainda o é a quem tem desafios a superar. Educa pelo gesto de acolhida, pela mão na cabeça, pela “ginástica” sincera do toque insubstituível e, finalmente, educa pelos olhos, pois nada constitui força de afetividade maior que um olhar de carinho.

Um olhar de hostilidade, desprezo, ignorância corta mais que o chicote, fere bem mais que uma lança, mas a disposição e o entusiasmo do mestre em fazer de seu olhar ação de carícia ou movimento de aceitação representa lenitivo que beneficia ação de integral e insubstituível afago. Pode alguém sem ele viver?